“Quando aqui chegámos nem uma fotocopiadora tínhamos”, diz João Carvalho, diretor-geral da SAD do Atlético Clube de Portugal, numa altura em que a Tapadinha parece estar a começar uma fase positiva e passados seis meses após o confronto com o Benfica. O duelo frente aos “encarnados”, o que não acontecia desde 1982, não representou apenas a “maior receita da história do Atlético em termos de bilheteira”. Para o braço-direito de Gifford Mille, acionista do clube, esse encontro foi um prémio de reconhecimento pelo trabalho que tem sido desenvolvido pela atual SAD, e não escondeu o orgulho: “Isso é impagável”.
Do ponto de vista de José Campos, um dos vice-presidentes do emblema alcantarense, o jogo contra o Benfica representou o “rejuvenescimento mais mediático” e a vivência de algo que já não acontecia há 43 anos, mas reitera que “o Atlético nunca morreu”. Vasco Loução, dono da Padaria do Povo, uma casa de Campo de Ourique que há muito partilha os valores atleticanos, admite que houve um esforço por parte do estabelecimento para “angariar o máximo de pessoas para ir ver o jogo”. Aqueles que não conseguiram deslocar-se até ao Estádio do Restelo tiveram neste estabelecimento um local especial para ver um jogo ainda mais especial.
Alguns adeptos não gostaram particularmente da solução encontrada pela SAD para a realização do jogo. Tendo a FPF considerado que a Tapadinha não reunia as condições de segurança necessárias, o estádio do arquirrival Belenenses serviu de palco ao confronto dos 16 avos de final. Embora em clara minoria, dois adeptos atleticanos, entre os muitos que se deslocaram ao Restelo para assistir a este jogo, afirmaram que “jogar no estádio do principal rival tirou logo parte do encanto”, acrescentando que “o Atlético, à semelhança do que acontece com o Bairro de Alcântara, está a perder alguma identidade”.

Um clube de origem popular
“O Atlético era um clube popular, de operários”, explica Vasco Loução. As raízes do emblema fundado em 1942 ligam-se à génese do bairro de Alcântara. Foi nesses tempos que o clube viveu os maiores êxitos. David Roxo é uma das mais emblemáticas figuras do clube. Sucedendo ao avô como técnico de equipamentos da turma da Tapadinha, explica que “ser Atlético é ligar o bairro ao clube, é ligar esta gente de pulso, que trabalha”. O avô de David, Álvaro Roxo, esteve no clube durante mais de 30 anos. Aliás, viveu mesmo dentro das instalações do Atlético e deu nome ao balneário da equipa de futebol. Miguel Barroca, ex-jogador de basquetebol do Atlético, formado no Sport Algés e Dafundo e com carreira no Benfica, conta que o pai, Carlos Barroca, “fez parte de uma geração que ganhou campeonatos”. Recorda ainda que, no final do século XX, encontrava o “pavilhão ao barrote”, lembrando que “o clube, no basquetebol, se batia sempre contra os grandes”.
Desde 1977, o Atlético nunca mais jogou na primeira divisão de futebol profissional. Foram 24 as presenças no principal escalão do futebol português, no qual chegou mesmo a acabar a prova na terceira posição. Lula fez parte do plantel que eliminou o FC Porto da Taça de Portugal na época 2006/2007, em pleno Estádio do Dragão. Chegou ao Atlético para jogar a 2ª B (equivalente à atual Liga 3) e, quando surgiu a proposta, ficou, como recorda, “extremamente feliz, por causa da grandeza do nome Atlético”. No tempo em que vestiu a camisola da equipa de Alcântara, lembra que “eram mais pessoas de terceira idade, dos 60, 70 anos, muito exigentes que iam ao Estádio da Tapadinha ver a equipa jogar”. Desde que começou a jogar no clube, apaixonou-se por Alcântara, pelo que admite ter feito sempre “um grande esforço para continuar a viver neste bairro de Lisboa”.
Para Lula, a maior barreira que encontrou no clube foi uma “mentalidade antiga por parte da direção, que não se queria modernizar”. Em contrapartida, acrescenta que o “clube pagava muito bem, o balneário era muito experiente e, acima de tudo, era a relação entre os jogadores que fazia a diferença”. Como tal, essa mesma união permitiu ao Atlético vencer uma equipa repleta de jogadores muito conceituados, alguns dos quais campeões europeus pelo próprio FC Porto, três épocas antes. “Quase 20 anos depois, temos um grupo que se reúne para jantar uma vez por ano”, afirma Lula.

No discurso pré-jogo, o luso-brasileiro diz que as palavras foram muito importantes. “Não viemos aqui para passar vergonha” foi a frase que ecoou na cabeça de todos aqueles que estavam convocados, tanto entre os titulares como entre os suplentes. Ainda antes do encontro, o jogador que atuava como extremo recordou a história bíblica em que David vence Golias. Coincidência ou não, foi David (da Costa) quem marcou o golo histórico que consumou a passagem aos 16 avos de final. No final do jogo, Luís Carlos da Silva Pinto ligou à mulher a chorar. “Muitos colegas estavam deitados no chão. Foi um misto de emoções, uns choravam, outros riam”, partilha. Nesse ano, depois de eliminar o Santa Clara, só a Académica impediu a presença do Atlético nas meias-finais da Taça de Portugal. O agora preparador físico e ‘mental coach’ mantém um carinho forte pelo Atlético e pelo seu público, afirmando que “são adeptos diferentes, em que parece que a Tapadinha é a primeira casa deles”.
Tempos sombrios na Tapadinha
Anos mais tarde, mesmo com o emblema a subir à Segunda Liga, o verniz estalou. Sem capacidade para ser autossustentável, a direção encontrou um interessado na SAD. A Anping Sports Agency, de Eric Mao, tornou-se acionista maioritária. Xiaolong “Bruce” Ji e Xinxin “Nancy” Cao eram os representantes de Mao em solo português. Corrupção e escândalo de apostas desportivas estiveram na origem do caos e desordem no emblema da Tapadinha. Henrique Lisboa, jovem adepto do Atlético, recorda com amargura esses tempos: “O nome do Atlético foi arrastado para a lama…A ideia da SAD chinesa não era enriquecer o Atlético desportivamente, mas sim os seus bolsos”. No entender deste adepto, “as contratações eram duvidosas com o clube a ir buscar jogadores que já estavam marcados por apostas pelas federações dos países onde jogavam e pela própria FIFA”.
David Roxo, que praticamente vive para o Atlético, descreve um sentimento de impotência e desilusão ao lembrar como viveu esses tempos sombrios. Apesar de querer fazer do futebol a sua vida, tendo o sonho de prosseguir com a carreira de treinador, admite que não conseguia acreditar na genuinidade do desporto-rei: “A partir dali, nunca mais acreditamos naquilo que é o futebol”. Sendo o clima vivido tão hostil, revela que chegou a ver cenas de violência entre os dirigentes. “Assisti ao chinês a levar com tacos de basebol…o vice-presidente a dar-lhe”, lamenta.
A instabilidade da gestão chinesa acabou por levar o futebol sénior do Atlético, o grande motor do clube, por caminhos muito difíceis. Em paralelo, a equipa de basquetebol, da qual fazia parte Miguel Barroca, ia superando as expectativas de Hugo e Mário Sousa, treinador e dirigente da secção, respetivamente. Miguel Barroca lembra que “a equipa era amadora, que não havia escalões de formação e que os jogadores não recebiam, pelo que estavam só por amor à causa”. Com apenas dois treinos por semana, os atletas iam jogando por prazer e de forma lúdica, mas, dada a vasta experiência e qualidade que tinham, venceram a CNB1.
Mantendo o registo, os “bad boys de Alcântara” garantiram, pelo segundo ano consecutivo, nova subida de divisão. Desta feita, chegaram à Pro Liga, o segundo escalão nacional, onde passaram a defrontar equipas profissionais. Se a primeira época na Pro Liga não correu como muitos ambicionavam, a segunda foi completamente diferente: a chegada de Sérgio Ramos fê-los “mudar o chip”. No início dessa época, Miguel Barroca sentiu de forma mais concreta e próxima a “má influência” da SAD chinesa: “Apesar de o espaço ser o mesmo, estávamos à parte disso. A única coisa que sentimos mais próximo foi numa vez em que fomos jogar ao Norte e, quando chegámos aqui ao estádio, estava polícia e havia buscas. Foi num dia em que aconteceram rusgas em muitos estádios.”

Depois de quase cinco anos a utilizar o Atlético CP como cobaia de um projeto ilegal, Eric Mao e os respetivos representantes decidiram abandonar o clube sem deixar rasto. Em todo o caso, a secção do basquetebol seguiu o seu caminho, batendo-se de frente contra qualquer adversário. No final da época, a equipa superara as expectativas. Estava, finalmente, de volta ao principal escalão do basquetebol nacional. Miguel Barroca recorda que, chegando à final, o grupo já tinha atingido o campeonato nacional: “Fizemos uma época incrível e deve ter sido uma das mais giras da história do clube.” Além disso, o outro finalista era o Illiabum, uma equipa profissional e que, em toda a fase regular, só tinha perdido contra um adversário: o Atlético.
De regresso ao espírito de bairro
A final, disputada à melhor de três jogos, teve o primeiro encontro na Tapadinha, curiosamente no dia em que se elegeu o primeiro presidente do clube, após a saída dos investidores chineses. Armando Hipólito sucedia a José de Almeida Antunes na presidência. Essa partida ditou o último encontro de Miguel Barroca pelo emblema de Alcântara. “Nesse jogo, o ambiente estava diferente, com malta da claque, devido às eleições, que ocorriam em simultâneo nas instalações do clube”, refere. O Atlético acabava por vencer esse primeiro jogo, mas, na casa do rival, perderia os outros dois.
Apesar dos problemas financeiros que o clube atravessava, Miguel Barroca relata que “já havia pessoas a moverem-se no sentido de criar condições para que a equipa participasse na Primeira Liga e o registo não ia ser muito diferente”. Contudo, quando o grupo regressou a Lisboa, poucos dias depois dos dois últimos jogos da final, Armando Hipólito convocou uma reunião com o grupo de trabalho. “Informaram-nos de que contavam com a equipa toda na mesma, mas que tinham desistido de subir à liga e que íamos jogar na CNB2, a quarta divisão, a última de todas”. Consternados, os jogadores optaram por abandonar o clube.
No que toca ao futebol, a direção de Armando Hipólito decidiu inscrever uma equipa na penúltima divisão da AF Lisboa, ocupando o lugar da antiga equipa B da SAD, que havia sido campeã da última divisão da AFL. No final de setembro de 2017, a AFL acabou por punir a SAD, excluindo-a de todas as competições. E é a partir daqui – já com a presença do atual presidente, Ricardo Delgado – que entra o Atlético de outrora: o clube “bairrista”, que era, novamente, dos sócios e adeptos.
José Ferraz, jogador que representou o clube alcantarense nessa época, lembra que eram “completamente amadores”. Como a camisola acabava por pesar, “todos os jogos contavam e sentia-se essa pressão de jogar bem e ganhar”. Foi assim que o grupo conseguiu alcançar o “maior feito” daquele ano, chegando à final da Taça de Lisboa. O ex-avançado do Atlético relata ainda a maneira como esta equipa, que lutava para combater a sua extinção, conseguiu eliminar “de forma espetacular” o Tires. Na altura, a equipa de Cascais disputava a primeira divisão distrital e o Atlético venceu a eliminatória a duas mãos. José Ferraz recorda a despedida que classifica de “espetacular”, na saída da Tapadinha, bem como os “potes de fumo utilizados no jogo frente ao Tires, que ficou marcado pela bancada cheia de adeptos do Atlético”. Tendo em conta os associados do conjunto da Tapadinha, José Ferraz reconhece que “estar na distrital não dignifica a história do clube”.
Mudanças positivas no clube de Alcântara
Depois de muitas alterações no plantel, José Ferraz saiu do clube. Por outro lado, Salvador Sá foi uma de muitas contratações para a nova época. Curiosamente, foi da cabeça dele que saiu o golo decisivo que consumou a subida à Pro-nacional: a primeira distrital. O antigo jogador recorda essa ascensão à capitania e o golo histórico como um reflexo da sua maturidade: “Já era capitão nessa época. Acho que é mais porque tinha personalidade, mas também por experiência”. Foi precisamente nesta altura que o Estádio da Tapadinha sofreu uma grande melhoria infraestrutural. A mudança aconteceu em 2019, graças a uma parceria com o Benfica: o clube da Luz tinha criado recentemente a equipa de futebol feminino e precisava de um campo para as jogadoras treinarem e jogarem. Investiu na modernização das infraestruturas do Atlético. Com esta ajuda, foi possível a renovação do relvado, a instalação do sistema de rega, de novos painéis publicitários e do marcador eletrónico.
Salvador Sá viveu de perto esta transição e recorda bem o impacto, especialmente na iluminação, que melhorou as condições do campo à noite. Após as obras resultantes da parceria com o Benfica, o defesa descreveu as condições do Atlético como as melhores para aquela divisão, sentindo que “nunca lhes faltou nada”. Com a casa renovada e as vitórias a surgirem, o carinho dos adeptos regressou, havendo, como descreve, “à volta de 500 pessoas a assistirem aos jogos”. Com entusiasmo, Salvador Sá lembra que “esse ambiente dava pica”.
Embora no início tenha sido sentida como um autêntico murro no estômago, essa travessia pelas distritais acabou por ser o momento em que o Atlético recuperou a sua verdade. Para alguns adeptos, este foi o “período mais engraçado, pois permitiu o regresso a um “futebol puro” e a “uma realidade mais genuína”. Longe da atual “comercialização do futebol”, a Tapadinha sobrevivia à base da “churrascada no espeto” e de um “futebol lírico”, que, segundo Vasco Loução, trazia uma satisfação que o profissionalismo moderno muitas vezes apaga. Naquela altura, refere o próprio, “apesar de haver menos pessoas, divertia-me mais”. Ao mesmo tempo, David Roxo, que se sentia um membro do plantel, recorda com saudade a relação próxima com os vários jogadores, bem como as viagens de carrinha: ” Agora é diferente, pois quanto mais profissional se é, menos se manifesta o lado humano.”
O tempo das distritais serviu para “separar o trigo do joio”. O antigo técnico de equipamentos recorda bem as tardes de chuva com apenas “30 pessoas na bancada”: “Só ficavam os que realmente ali estavam para sentir a casa. Foi esta resiliência que manteve o clube vivo, provando que, para os resistentes de Alcântara, as coisas quando são mais difíceis têm outro sabor.” Mais do que uma fase de espera, este processo serviu, segundo Vasco Loução, “para resgatar a matriz da raiz do clube”, algo que considera “vital para que a identidade do Atlético não se desvaneça perante a nova demografia do bairro”. Este espírito de humildade com ambição permitiu, no seu entender, “ao emblema estabilizar e começar a olhar para outros horizontes, sem a pressa de subir em “elevadores que não aguentam o peso da estrutura”.

A ambição de Tiago Zorro
Com a ambição de voltar aos campeonatos nacionais, Tiago Zorro chegou ao Atlético em 2021, proveniente do Sintrense. O técnico que agora orienta o Belenenses levou o clube de Alcântara a vencer a primeira divisão distrital da AF Lisboa e a ser promovido ao Campeonato de Portugal. No ano de estreia na última divisão nacional, época que Henrique Lisboa vê como a mais marcante porque, à partida, “lutávamos pela manutenção”, Tiago Zorro não só garantiu nova subida de divisão, como foi mesmo campeão.
Nesse ano, o jogo do título ainda se disputou no Estádio Nacional. Todos os que passaram pelo Atlético ouviam David Roxo dizer muitas vezes: “Um dia vou jogar uma final no Jamor”. Agora, lembra esse jogo emblemático: “Não só jogámos no Jamor como trouxemos o troféu para a nossa casa.” Com a subida à Liga 3, o Atlético CP acabou por fazer o que os ingleses – ou os americanos – gostam de chamar: back-to-back promotion. Na estreia na terceira divisão portuguesa, o clube de Alcântara ainda sonhou com a subida à Segunda Liga, uma vez que atingiu a fase de apuramento de campeão, mas a equipa manteve-se na Liga 3.

Em 2023, uma figura improvável vinda do outro lado do Atlântico rendeu-se ao histórico Atlético Clube de Portugal. Gifford Miller, antigo presidente do Conselho da Cidade de Nova Iorque, mostrou-se interessado em adquirir um clube português, observando “o Atlético, o Amora e o Santa Iria”. Salvador Sá teve um papel crucial, ao sugerir, através do intermediário João Carvalho, que Miller investisse no histórico de Alcântara. O interesse do norte-americano foi tanto que decidiu entrar em contacto com o presidente do clube, Ricardo Delgado, para iniciar negociações sobre a formação de uma nova SAD. Em fevereiro de 2024, foi aprovado, em assembleia geral, que 90% da SAD passaria a pertencer ao grupo Signature Football Holdings, com uma taxa de aprovação a rondar os 92% entre aqueles que votaram.
José Campos, vice-presidente do emblema alcantarense, define a entrada de investidores e a constituição de sociedades anónimas desportivas como um “mal necessário” para que os clubes consigam “respirar financeiramente”. Para o Atlético, foi o passo necessário para ser competitivo no terceiro escalão do futebol, aspirando à presença na Segunda Liga a médio prazo.
As opiniões sobre Gifford Miller são, entre quem segue o clube, bastante positivas e o que mais tranquiliza, tanto os adeptos como o vice-presidente, são a ressalva de que o clube ainda tem 10% das ações e voto na matéria em determinados pontos, como a preservação do traço original do estádio. A presença assídua nas redes sociais e a criação da Fan Zone são dois dos pontos-chave na angariação de novos adeptos. “Há cada vez mais estrangeiros a viver em Alcântara, o que faz com que a americanização seja útil para conseguir atrair mais gente para o clube”, diz o ex-capitão Salvador Sá. Tanto o futebol como o basquetebol de formação são alguns dos elos mais fortes para atrair novos adeptos. ”Veem-se muitos pais de atletas a começarem a gostar de ir ao estádio ver o jogo”, refere José Campos.
Momento de viragem no Atlético
Miguel Barroca considera que “este é um trabalho de conquista da população” porque, como justifica, “a que está aqui é diferente da que havia há 20 anos, há 30 ou até há dez”. Segundo o antigo jogador de basquetebol, que vive em Alcântara há uma década, “há mais jovens e muita gente que não é portuguesa e, sendo o Atlético um clube bairrista, é imprescindível agarrá-las e ligá-las ao clube”. Salvador Sá sublinha que a SAD está a “tentar construir uma marca, na qual querem fazer dinheiro para, ao mesmo tempo, aumentar o nome do Atlético”. O facto de Miller e respetiva comitiva não estarem – afirma – “com pressa de subir faz com que consigam construir uma base sustentável”. O acionista norte-americano quer que o Atlético se torne o segundo clube preferido de toda a gente.
A equipa de futsal feminino tem sido a que mais se tem destacado. Neste momento, o clube não tem o escalão sénior masculino da modalidade. A justificação ocorreu após assembleia geral realizada em julho de 2023. Na altura, o clube de Alcântara fundamentou que a decisão surgia “da impossibilidade de garantir a sustentabilidade financeira antes do início da época 2023-2024”. Como tal, o emblema achou por bem priorizar o investimento no futsal feminino, tanto na equipa sénior como em mais escalões de formação, assim que o clube chegou ao Campeonato Nacional. Desde então, a equipa feminina mantém-se no principal escalão e conseguiu sempre garantir a presença no playoff da competição. Nesta época, chegaram às meias finais, mas foram eliminadas pelo Benfica.
No basquetebol, o Atlético tem permanecido na CNB1. Depois da pandemia, o núcleo duro responsável pela subida da última à primeira divisão regressou ao Atlético. Hugo Sousa, homem que Miguel Barroca tanto elogiou e a quem deve a sobrevivência da secção, fez as pazes com os alcantarenses. Deixou para trás as represálias com Armando Hipólito e, já com Ricardo Delgado, regressou a casa. Convenceu muitos dos antigos jogadores, que haviam construído páginas douradas na história recente do Atlético, a fazer uma “Last Dance”. Na temporada que marcou o fim da carreira de tantos ilustres da Tapadinha e do basquetebol português, o clube subiu da CNB2 à CNB1.
Miguel Barroca entende que a aposta na formação em futsal feminino, basquetebol e e futebol masculino são determinantes para o clube: “Quantos mais miúdos estiverem a jogar, mais receitas vai haver em mensalidades.” O Atlético tem-no feito, abrindo cada vez mais escalões nestes desportos. A formação pretende também envolver os atletas nos valores que movem o clube, fazendo perdurar o legado do Atlético, a mística de Alcântara e angariando mais adeptos.

Com a segunda divisão no horizonte
Olhando para o horizonte, o futuro do Atlético Clube de Portugal desenha-se com metas claras. João Carvalho mantém os pés assentes na realidade competitiva e traça um objetivo a médio prazo: “Aquilo que acho que é possível e real é estarmos na segunda divisão daqui a cinco anos”. Contudo, José Campos não esquece a imprevisibilidade do desporto, deixando um aviso pragmático: “A bola, às vezes, bate no poste e vai para dentro, outras vezes vai para fora. Ter dinheiro não é tudo.”
O pilar central desta estratégia de crescimento assenta na preservação da identidade física do clube. Ao contrário de muitos projetos modernos que procuram novas localizações, a atual gestão recusa liminarmente o desenraizamento. João Carvalho é categórico ao afirmar que “a maior prioridade é nunca sair deste estádio”. A visão para a Tapadinha não passa por uma construção futurista e descaracterizada, mas antes por uma reabilitação profunda que respeite a história: “A nossa ideia é pegar neste estádio e fazer dele um estádio onde, quando e se subirmos à primeira divisão, possamos jogar aqui.” Os passos imediatos já estão delineados e incluem a instalação de iluminação, a reabilitação das bancadas atualmente interditas, novas zonas de balneários e a colocação de coberturas.
Para lá das quatro linhas e do betão, a SAD pretende transformar a perceção pública do Atlético, elevando-o ao estatuto de um ícone da capital. João Carvalho define a premissa central de gestão com uma ambição clara: “Queremos que o Atlético seja o segundo clube de toda a gente e o verdadeiro clube de Lisboa”. Nesta perspetiva, ser do Atlético deve transcender a geografia de Alcântara, funcionando como uma representação da cidade na sua vertente “comunitária, artística e desportiva”. Para o diretor-geral da SAD, este processo exige uma transição definitiva para um modelo empresarial, assumindo a responsabilidade de profissionalizar a estrutura: ” No fundo, fazer disto uma empresa é da minha responsabilidade.”
Este renascimento, embora liderado financeiramente pelo futebol, pretende ser transversal a todo o emblema. O sucesso da SAD é visto como um motor que alimentará o pavilhão e as modalidades amadoras. “O futebol é aquilo que tem maior montra”, defende João Carvalho. Esta visão de simbiose é partilhada por Miguel Barroca, que vê na comunicação da SAD uma oportunidade para todo o ecossistema alcantarense. Para o antigo atleta de basquetebol, ao promoverem a equipa sénior de futebol, “os gestores estão a comunicar a marca Atlético, o clube e quem vier cá vai conhecer mais do que o futebol”.
Ainda que com todas as mudanças demográficas e estruturais já ressalvadas, este histórico lisboeta pretende continuar fiel à sua identidade, seguindo, como cantado numa música dos alcantarenses, a ideia de “construir o futuro a lembrar o passado”. “Os adversários podem chegar aqui e ganhar, mas saem e dizem “Alcântara é duro”, conclui David Roxo.