Quando a Grande Lisboa se prepara para descansar e os banhistas já regressaram a casa, a Praia da Crismina, no Guincho, no concelho de Cascais, ganha outra vida. Entre as rochas imponentes e de características morfológicas peculiares, diversos pescadores aguardam, com as canas na mão, que os sargos e robalos mordam o isco. A única companhia é o vento característico da zona, as ondas e o areal imenso. À sua esquerda, é costume encontrarem a praia cheia de banhistas, ainda que o mar do Guincho seja conhecido por ser gélido. Uns acabam por surfar, outros apanham banhos de sol. Por perto têm o antigo forte da Crismina, antes abandonado, mas que agora leva obras para que se torne num restaurante. A vista do mar é digna de um postal. Vê-se terra, mar, praia, mato e a serra de Sintra.
A Praia da Crismina é um dos sítios preferidos dos pescadores, em Cascais. Sentado numa falésia abraçada pelo vento, Luís Gato, 34 anos, repete um ritual sagrado desde criança: sair de casa com a cana, o engodo e a esperança de conseguir apanhar peixe. Natural de Cascais, apanhou o gosto de estar junto ao mar com o avô, também pescador. Tinha apenas três anos quando o levou a pescar, pela primeira, vez. Nas férias de verão, a sua família ia para uma casa que possuíam na Zambujeira do Mar. Aí, avô e neto iam pescar todos os dias. Durante a sua adolescência, seguindo também os passos do avô, entrou no mundo da pesca desportiva, onde obteve alguns bons resultados. Ao completar o secundário, decidiu que o seu futuro seria bem diferente dos colegas. Em vez de ingressar na universidade, optou por transformar a pesca em profissão, tirando um curso de marinheiro no FOR-MAR (Centro de Formação Profissional das Pescas e do Mar).
A Praia de Crismina como uma segunda casa
O cair da noite é uma das alturas do dia mais concorridas para a pesca nesta zona. O sol ainda não se pôs e já são vários os pescadores que se alinham com as respetivas canas: “Antigamente, conseguia passar noites seguidas sem ver uma pessoa”, conta. Francisco Vicente, 37 anos, também conhecido por Kikas, concorda: “Agora, é preciso andar a fugir para encontrar um lugar sem pessoas para pescar.” São lançadas as canas e os pescadores esperam que a sorte os encontre. Na espera, a conversa começa ao sabor do vento. Muitos dos pescadores da Crismina estão reformados e pescam para conseguirem um rendimento extra. “Já não se fazem jovens como antigamente”, reclama um pescador sénior. Kikas recusa aceitar que antes é que era. E enquanto esperam que o peixe apareça, atiram ideias sobre as gerações. “A maior parte dos jovens não está apta para enfrentar frio, mar, mau tempo e acordar cedo ou não dormir”, diz Luís Gato.
“A pesca é dura e nem sempre compensa. É preciso amar muito a atividade para a tornar profissão e há poucos jovens a sentirem esse amor.”
Luís Gato, pescador
A meio de conversa, um dos pescadores sente a cana a ser puxada. Todos se calam na esperança de que este peixe tenha trazido companhia. Enrola o carrete e consegue apanhar um robalo. Após verificar o peixe, guarda-o, ainda vivo, dentro de um balde. Junta os pertences e segue para casa. Esteve aqui quase cinco horas e já conseguiu algum peixe, entre sargos e robalos. Deseja uma boa pesca aos restantes e sai.
O tempo passa e o vento abranda, mas as ondas ainda se fazem ouvir. Voltam para casa aqueles que já lá estão há muito tempo. Os jovens pescadores ficam, na esperança de que o peixe venha. Começa-se a meter conversa e falam que vêm cada vez mais pescadores em todo o lado. Contudo, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de pescadores matriculados tem vindo a diminuir a cada ano. Dos 20 mil registados em 2003 passou para 14 mil em 2023.
O futuro da pesca é um tema que preocupa os que fazem da atividade profissão. Os dois pescadores confessam que têm medo de que os jovens se afastem da atividade. “A pesca é dura e nem sempre compensa. É preciso amar muito a atividade para a tornar profissão e há poucos jovens a sentirem esse amor”, complementa Luís Gato. Finalmente, um peixe é atraído e morde a isca. Ao ver que é um sargo, Luís Gato executa uma técnica que aprendeu com o avô: mata o peixe para acabar com o seu sofrimento, mas com uma técnica precisa para que a sua carne fique tenra.
Perigos desconhecidos da zona
Esta parte do guincho é conhecida pelas fatalidades. São já vários os pescadores – e não só – que perdem a vida para o mar. É comum ouvir notícias de turistas que vão para uma zona mais turística, a Boca do Inferno, e que se aproximam demasiado do mar, que é bastante forte nesta região, e acabam por ser levados. Quando vai à pesca nesta zona, sobretudo para capturar marisco, a mãe e avó de Luís Gato ficam sempre “com o coração na mão”. “Muitas vezes, quando venho pescar à noite, elas pouco dormem, devido à preocupação. É sempre um alívio quando chego a casa bem. Ainda por cima com os constantes naufrágios e acidentes com pescadores, a preocupação delas aumenta, mas corre sempre tudo bem”, conta. Não passou muito tempo desde que um trabalhador de um restaurante saltou à água para salvar uma estrangeira que tinha caído à água. Kikas avisa que “é preciso ter respeito ao mar. Ele é lindo, mas imprevisível”.
A noite continua e conseguem pescar mais alguns peixes. Ao fim de cinco horas e com o balde abastecido de peixes, é tempo de recolher. Já em casa, a conversa prossegue enquanto amanham o peixe. Com o tom de quem não esconde a paixão pela profissão, os dois pescadores assumem que a pesca merecia outro reconhecimento. “As condições podiam ser melhores, sentimo-nos esquecidos pelo Governo e pela Europa, mas ainda tenho esperança de que sejamos ouvidos”, lamenta Luís Gato.
Já com o peixe amanhado, é hora de fazer a divisão pelos dois e de decidirem o seu destino. Luís Gato arruma o peixe para o ir vender no dia seguinte, às primeiras horas da manhã. Francisco Vicente ou Kikas guarda o peixe para realizar uma grelhada com os amigos do curso.
“A pesca é uma atividade cara, gastamos muito em material e, por vezes, o que recebemos não cobre o que gastamos.”
Francisco Vicente, pescador
Os dois acreditam que existem cada vez menos jovens inscritos, o que não é a realidade. Segundo dados cedidos pela FOR-MAR, o número de formandos por ano tem vindo a aumentar ano após ano. Em 2024, eram cerca de nove mil. Contudo, apenas metade deste número corresponde a jovens dos 15 aos 34 anos. Como refere Luís Gato: “A maioria das pessoas que vemos a pescar são ou idosos que já estão na profissão há muito ou reformados que decidiram que queriam começar a pescar. Precisamos de mais jovens, pessoas com garra e, acima de tudo, cabedal para pescar.”
A noite de pesca acaba e os dois começam a despedir-se. Querem combinar uma próxima pesca no mar, mas o barco de Luís Gato está avariado e o arranjo é dispendioso. “A pesca é uma atividade cara, gastamos muito em material e, por vezes, o que recebemos não cobre o que gastamos”, comenta Francisco Vicente. O preço médio do pescado transacionado nas lotas de Portugal Continental foi de cerca de 2 euros por quilo. Muitas vezes, não cobre as despesas que os pescadores têm com combustível, licenças e seguros, manutenção de embarcações, além de equipamentos vários, engodos e iscos. Sem falar de que nem sempre se volta de uma pesca com muito peixe. “São muitas as vezes que saí para pescar e voltei sem nada”, revela.
A data para a próxima pesca com cana não fica definida entre os dois. Com a companhia do seu amigo aprendiz de pescador ou sozinho, Luís Gato sabe que, no dia a seguir, estará sentado nas rochas do Guincho, enquanto não houver verba para arranjar o barco e se fazer ao mar. É tempo de dormir para ir tratar do seu sustento bem cedo e deixar o peixe capturado na lota.
É sábado de manhã e no mercado de Cascais, não falta oferta para vender. Entre as espécies frescas para serem consumidas, lá estão os peixes apanhados por Luís e por muitos outros pescadores desta costa de mar picado pelo vento.