Entrecampos: A flanar pela minha rua

No fim da minha rua, antes da linha do comboio, há um pequeno largo com um chafariz muito antigo. À noite, as pessoas gostam de ir para lá beber e deixam para trás os pacotes de vinho barato, as garrafas vazias de cerveja e as beatas dos cigarros. Cheira mal e a sujidade e humidade já se entranharam na pedra branca dos bancos, agora escuros, que ladeiam a praceta.

Na placa central lê-se: “A Câmara Municipal de Lisboa em 1851”. É um dos chafarizes que outrora esteve ligado ao Aqueduto das Águas Livres. Agora desativado, está disposto no centro de uma meia-lua de azulejos que lhe servem de fundo. Alguns foram roubados e o painel parece agora um puzzle incompleto. A pintura representa a vista panorâmica da antiga paisagem do vale de Entrecampos, um cenário rural verdejante entre colinas, onde se montava a cavalo, burros puxavam carroças com mercadoria e lavadeiras enchiam as suas vasilhas de barro na fonte. Por cima dessa Lisboa antiga, que na pintura exibe apenas duas construções, o Palácio das Galveias e o Palácio Pimenta, foi edificada uma nova, precisamente, aquela que eu conheço.

Moro na Rua de Entrecampos, paralela à Avenida da República, desde que nasci. Já a olho e a tudo ao seu redor, há 23 anos. Certas coisas são transversais na minha memória: os sons, como o chiar do comboio nos carris, os aviões que sobrevoam a minha casa de três em três minutos, durante dia, e de cinco em cinco à noite (por respeito aos residentes), e os cheiros: o alcatrão queimado no verão, ou as castanhas assadas em outubro.

Já vi a Avenida da República de todas as formas. Lembro-me de brincar no parque infantil da praça do Campo Pequeno. Na altura, a Avenida resumia-se a isso: um sítio onde eu podia brincar (e onde, às vezes, ia ao dentista). Do baloiço avistava a copa das árvores e as gigantes cebolas azuis no topo da Praça de Touros, e lambuzava-me num Epá, que a minha mãe comprava num quiosque que ainda existe, mesmo à saída do metro.

Agora sei que a Avenida da República se transforma a cada instante e muda de dia para dia, de hora para hora. Às 9 da manhã, saio de casa para passear a minha cadela. O passeio é largo, mas àquela hora é difícil caminhar sem esbarrar contra alguém. As pessoas vêm de todas as direções. Saem dos autocarros, do metro, do comboio… Cada uma com um destino diferente. É o caos. Passadas as 10 da manhã, a Avenida torna-se noutra. Podemos agora caminhar com calma e sentir o sol na pele.

À tarde, combino um café com os meus amigos. Vamos ao Choupana? À Padaria Portuguesa? Ao Déjà Vu? Não importa. Ficamos tardes inteiras a conversar e a rir nas esplanadas, a observar as pessoas. Ao entardecer, o caos regressa. É agora outro e a Avenida também. A pressa para chegar ao trabalho transformou-se na urgência de voltar a casa. As pessoas têm o cansaço estampado nos rostos. Os carros buzinam uns aos outros e aos próprios peões, que desrespeitam os sinais vermelhos.  Nessa altura, o melhor a fazer é fugir também para casa.

Depois do jantar, quero ir ao Nimas. Pego numa trotinete e deslizo pela ciclovia transversal a toda a Avenida. Sinto o vento na cara e acelero para tentar apanhar todos os semáforos verdes. Viro na Duque D’Ávila, a minha rua preferida, e estaciono mais à frente. Quando saio do cinema, já passa da meia-noite. Regresso à Avenida que, mais uma vez, é agora outra. Fumo um cigarro num dos bancos e fico a observar as luzes da cidade e os prédios. Tenho uma lista dos edifícios em que gostaria mais de viver, como aquele onde instalaram estúdios do Ikea, muito bonito, branquinho e creme, com uns mosaicos coloridos no centro; ou o meu predileto desde sempre, o antigo palacete dos condes de Valmor, que, segundo o Booking, custa 300 euros por uma noite (mas com pequeno-almoço incluído, claro), o Dear Lisbon Valmor Palace.

São 5 da manhã. Estou a regressar a casa, após uma noite no Bairro Alto. Já perdi a conta das vezes que percorri esse caminho a pé a horas indignas. Mas sabe-me bem. Desço a Calçada da Glória até à Avenida da Liberdade; sigo para o Marquês, subo a Fontes Pereira de Melo e chego ao Saldanha. O percurso é íngreme e exige alguma preparação física, mas a esta hora não custa. Ao chegar à praça do Saldanha, sinto-me automaticamente segura, o que não é habitual para uma jovem mulher sozinha na rua de madrugada. Mas ali, estou em casa. Agora não passam carros, nem pessoas. Não se ouve nada, só o constante barulho de fundo da cidade adormecida. Daí a umas horas, o caos da manhã voltará a instalar-se. Mas, por agora, é tudo meu.

Sinto que a zona ainda é os verdes campos lavrados da pintura do chafariz; o sítio onde andei de baloiço e olhei para o céu. É a madrugada silenciosa, o caos da manhã e a paz da noite. De certa forma, a cidade ainda me transmite a serenidade da pintura nos azulejos antigos – e uma certa saudade de tempos que nunca vivi.

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