O número de praticantes de futebol feminino cresce ao longo dos anos, os adeptos aumentam e as vitórias surgem. Em janeiro de 2024, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) divulgou o estudo “Futebol Feminino em Portugal”, que incluiu onze épocas desportivas, mais precisamente entre 2012/13 e 2022/23. De acordo com a pesquisa, numa década, o número de jogadoras de futebol e futsal aumentou 132%, ou seja, de 6.520 em 2012/13 passaram a 15.113, no final de 2022/23. Em 2023/2024, o número de futebolistas inscritas era, segundo FPF, superior a 17.700. A mesma investigação registou ainda a subida de competições de futebol feminino em Portugal, com um acréscimo de 27 para 94 (248%). No entanto, por cada passo em frente, há muros que permanecem intactos. Neste país onde o futebol é rei, o feminino ainda luta para ser súbdito. É como jogar uma final com o campo inclinado, a baliza mais pequena e o relógio contra si.
O futebol feminino quebra todos os dias barreiras, cresce a olhos vistos, mas, para muitas jovens, a bola não paga as contas e o sonho tem prazo de validade. Apesar da paixão que entregam à modalidade, está limitada a ser um hobby e lamentam que fazer do futebol vida, em Portugal, seja quase impossível.

Correr contra o vento
A realidade em que muitas jogadoras da Liga BPI se veem obrigadas a trabalhar diariamente preocupa jogadoras, treinadores, simpatizantes e adeptos. De um lado, clubes que conseguem pagar ordenados fixos e oferecer condições dignas às atletas e, por outro lado, equipas em que o amadorismo ainda dita as regras: salários em atraso, infraestruturas inadequadas, campos impróprios para treinar, balneários em estado deplorável e falta de cuidados médicos. Estas são apenas algumas das condições que as atletas dizem enfrentar. É um cenário que se repete dentro de uma liga que se pretende profissional, como se fossem dois campeonatos completamente distintos a coexistir sob o mesmo nome e espaço.
O fosso entre os clubes com maior projeção e os restantes não para de crescer, aumentando as assimetrias entre jogadoras que ao fim de semana são obrigadas a competir em pé de “igualdade”.

Crescer ou fechar as portas?
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) anunciou, no início desta época e apesar do aumento de jogadoras, que a Liga BPI será reduzida de 12 para dez equipas, com o objetivo declarado de aumentar a competitividade. Esta medida surge num contexto em que os primeiros lugares da classificação têm sido ocupados por um número reduzido de clubes, habitualmente os mesmos, refletindo uma disparidade evidente entre as equipas com maiores recursos e as restantes.

Cristiana Martins, jogadora do Albergaria, considera que esta decisão tem implicações tanto a nível técnico como estrutural: “Com menos clubes participantes, a exigência de cada jornada será muito maior, o que leva as equipas a apresentarem um maior rigor técnico, tático e físico. Assim, os clubes serão obrigados a investir ainda mais numa boa estrutura, como a equipa técnica e a formação”, afirma. A atleta sublinha ainda que “a federação poderá financiar de forma mais eficaz as equipas presentes na competição, o que permitirá uma melhoria nas condições oferecidas aos clubes”.
A jogadora do Clube de Albergaria alerta para as consequências desta medida, especialmente para o desenvolvimento sustentado da modalidade: “Uma das maiores preocupações consiste na diminuição das oportunidades para as jogadoras integrarem a primeira divisão. Reduzindo o número de vagas, haverá menos espaço para a progressão de várias atletas.” Cristiana Martins explica que “esta mudança levou também a um critério mais rigoroso na permanência, o que acabou por penalizar equipas com menos capacidade financeira, tendo sido algumas delas grandes pilares da modalidade, de onde vieram grandes talentos que se encontram hoje em dia em grandes clubes”.
Estas declarações ilustram o dilema vivido por várias atletas e clubes: se por um lado a medida poderá contribuir para uma liga mais competitiva e profissionalizada, por outro levanta dúvidas quanto ao impacto na inclusão e na continuidade de projetos com menos recursos.

O apoio que tenta sustentar os sonhos
O “cortar de pernas”, como referem algumas jogadoras, não é apenas visível dentro das quatro linhas. Fora delas, a narrativa tende a repetir-se. Apesar da grande abertura por parte dos media ao longo dos anos em relação ao futebol feminino, este continua a viver sob um manto de silêncio intermitente. Várias jogadoras afirmam que, por muito que esse reconhecimento chegue, é frequentemente superficial e mais simbólico do que real. Carla Couto, antiga internacional portuguesa e atual embaixadora do Sindicato dos Jogadores para o futebol feminino, reconhece os avanços da modalidade, mas avisa para os desafios ainda por enfrentar: “Existe muito para fazer, muito para conquistar. Tem sido um trabalho diário, no entanto, acredito que, com muito trabalho e dedicação, vamos atingir outros patamares.”

Para a histórica jogadora da Seleção Nacional, “é importante continuar a promover a modalidade e as atletas, destacando a criação de infraestruturas, os investimentos por parte da FPF, das associações distritais e dos clubes, o aumento do número de praticantes ano após ano, o facto de as seleções jovens e da seleção principal cada vez mais estarem a conquistar o seu espaço nas competições europeias e mundiais, a ambição de profissionalizar a Liga BPI, um contrato coletivo de trabalho que o Sindicato dos Jogadores quer implementar no futebol feminino”. Estas são algumas das iniciativas e conquistas que a eterna número nove da Seleção Nacional vê como importantes para um crescimento sustentável da modalidade em Portugal.
Pequenos passos, grandes esperanças
Apesar das barreiras ainda presentes, surgem iniciativas que apontam para um futuro promissor. O Sporting Clube de Braga inaugurou, em 2025, um estádio dedicado à equipa feminina. Este projeto não só melhora as condições de treino e jogo, como também demonstra o compromisso do clube para com a valorização do futebol feminino.

Dolores Silva, que foi capitã do SC Braga até junho de 2025 e da Seleção Nacional, viu neste momento algo que vai além da infraestrutura em si. Para a experiente jogadora, a inauguração do estádio simbolizou um reconhecimento há muito esperado: “Foi um momento marcante e muito especial, que representa muitos anos de luta, em prol do melhoramento das condições de trabalho para as futebolistas no nosso país. Foi um sinal de valorização do nosso futebol e de dar mais ênfase rumo à profissionalização, tornando-se uma base para continuarmos a crescer enquanto atletas e mulheres valorizadas no seu trabalho, tal como merecemos.”
A Federação Portuguesa de Futebol, em colaboração com o BPI e a Fundação “la Caixa”, lançou um programa de bolsas de estudo destinado às jogadoras da Liga BPI. Esta iniciativa visa apoiar as atletas que conciliam a sua carreira desportiva com os estudos, oferecendo bolsas entre 1200 e 1500 euros, dependendo do nível de ensino. A atribuição das bolsas baseia-se no mérito académico das atletas, permitindo que as mesmas possam prosseguir os estudos universitários enquanto mantêm o seu compromisso com o futebol.

Catarina Pereira, jogadora do Sport Clube União Torreense e mestre em Ciências Farmacêuticas, recebeu com muito entusiasmo esta iniciativa da FPF. “A atribuição de bolsas de estudo por parte da federação foi uma excelente iniciativa. Permite que os atletas não se dediquem apenas ao futebol, mas também possam continuar a estudar sem que isso represente um peso extra nas suas carteiras. É uma forma de garantir que não fechamos portas a outras áreas que também nos interessam, promovendo um equilíbrio entre a vida académica e desportiva.” A atleta reforça ainda o impacto pessoal da medida: “Como já conciliava os estudos com o futebol na altura em que surgiu esta bolsa, representou sobretudo um apoio financeiro.
Iniciativas como esta são fundamentais para valorizar o futebol feminino, promovendo a igualdade de oportunidades e incentivando mais jovens a acreditar que é possível seguir uma carreira no desporto sem abdicar da sua formação académica.” Como confidencia Dolores Silva, “ajudam a mostrar a nossa valorização enquanto atletas e mulheres, pois merecemos as melhores condições para o nosso trabalho”.
As jogadoras têm consciência que o futuro do futebol feminino português não se garante com intenções, mas, defende Carla Couto, “antes com investimento, coragem, condições e com a capacidade de olhar para o presente e perceber que é agora que se constrói o futuro”.