Jornalismo de investigação: a “joia da coroa” em risco

A falta de recursos, a pressão das audiências e a dependência de modelos económicos frágeis colocam em risco a capacidade dos jornalistas para investigar. À medida que as redações encolhem e o tempo se esgota gerando uma crise silenciosa numa das mais importantes profissões do mundo, a pergunta impõe-se: quem fiscaliza quem, quando os próprios media lutam para sobreviver?

O contexto mediático tem atravessado transformações estruturais e funcionais. A concentração de propriedade, a migração das receitas publicitárias para plataformas digitais e a precariedade laboral nas redações têm fragilizado a independência editorial e comprometido a qualidade da informação. Com o poder económico das empresas jornalísticas a cair abruptamente, as redações estão hoje reduzidas e a trabalhar com recursos mínimos. Enquanto isso, a competição entre meios, sobretudo entre as televisões privadas e no online, tem-se agudizado. No meio desta crise prolongada, o jornalismo de investigação é o ramo mais ameaçado. Descrito por Peter J. Anderson, no livro The Future of Journalism in the Advanced Democracies, como “a joia da coroa do jornalismo”, este género, por definição exigente, demorado e dispendioso, enfrenta dificuldades crescentes para sobreviver. Torna-se difícil sustentar investigações que exigem meses de apuração rigorosa, cruzamento de fontes e trabalho invisível.

Foto: Rui Duarte Silva
Miguel Carvalho, antigo grande repórter da Visão, lançou em livro uma das investigações mais aprofundadas sobre o partido Chega

Longe parecem ir os tempos em que os jornalistas tinham mais espaço e tempo para investigar qualquer tema que entendessem ser relevante. Miguel Carvalho, jornalista independente, recorda o auge da newsmagazine onde trabalhou como grande repórter: “Quando a Visão vendia cento e tal mil exemplares por edição, chegámos a ter três ou quatro pessoas a cobrir a guerra do Iraque.” Números bem diferentes do presente: “Hoje, por outro lado, se precisarmos de ir fazer uma reportagem a Freixo de Espada à Cinta, em Trás-os-Montes, por dois dias, é capaz de ser um drama para vários órgãos de informação.” Depois de a empresa que detinha a publicação, a Trust in News, ser considerada insolvente, os jornalistas lançaram a campanha de crowdfunding ‘Continuar a Visão com os jornalistas que a fazem ‘ para continuarem a trabalhar e na esperança de angariarem verba suficiente que lhes permita comprar o título.

Antes das restrições orçamentais que se agudizaram a partir de 2008, os profissionais com mais anos de experiência e conhecimento poderiam produzir trabalhos de maior qualidade, uma tendência perdida e que causa alguma frustração entre os jornalistas. Pedro Coelho, repórter do programa Grande Reportagem, confessa que a situação o entristece, sobretudo porque sente que tem hoje mais capacidade para lidar com situações complexas, mas não pode avançar por falta de disponibilidade financeira da empresa onde trabalha. “Quando comecei a fazer quase quotidianamente jornalismo de investigação, tinha outros meios, mas não tinha o conhecimento que tenho hoje. É um paradoxo muito difícil de superar.”

Na intervenção que Pedro Coelho realizou no último congresso de jornalistas, que se realizou entre 18 e 21 janeiro de 2024, o repórter da SIC já alertava para as consequências do desinvestimento no jornalismo

É neste cenário que ganha peso o alerta de Pedro Coelho: “A expressão de jornalismo de investigação no país é absolutamente residual.” Para o repórter da SIC, “o prestígio e o rigor têm vindo a esvaziar-se”. Nas suas próprias investigações, como explica, “um trabalho só pode ser considerado jornalismo de investigação se cumprir quatro critérios fundamentais: originalidade, solidez das fontes, ética e método. Sem estes elementos, não estamos perante uma verdadeira investigação, razão pela qual existe muito pouco jornalismo de investigação em Portugal”.

Ser jornalista de investigação na íntegra é cada vez mais raro. Miguel Carvalho sublinha que “um jornalista desta área precisa de ir ao terreno e investigar”. Não é – acredita – o que está a acontecer no país. “Os jornalistas estão cada vez mais ‘colados’ às secretárias. Estamos, portanto, a fazer ‘Portugal sentado’ e os profissionais ficam-se por casos e casinhos que se repetem todos os dias.À pouca vontade dos jornalistas junta-se, no entender de Pedro Coelho, a falta de coragem. “Enveredar por esta área de trabalho exige coragem, pois muitas destas investigações culminam em processos judiciais. É preciso saber viver com a pressão do processo judicial ou das fontes”, justifica Pedro Coelho. E exemplifica com a sua vivência pessoal: “Enquanto jornalista de investigação, sou arguido em dezenas de processos. Passo a vida a correr para os tribunais. É necessária a coragem de ser incómodo e de ser persistente.”

O jornalista Miguel Carvalho sublinha que, sem ir ao terreno, não existe jornalismo de investigação

À falta de meios, agrava-se a desinformação

A pressão constante, aliada à falta de sustentabilidade e ao pouco tempo disponível nas redações, afasta muitos jornalistas da investigação: “Por muito que os jornalistas lutem, não têm o acordo das administrações para avançar com melhores condições e mais espaço para matérias importantes do ponto de vista editorial”, denuncia Miguel Carvalho. Esta realidade contribui para um círculo vicioso: quanto menos investigação se faz, mais frágeis se tornam as redações e maior é a sensação de que o risco não compensa.

Num contexto em que os jornalistas já enfrentam estas fragilidades, surge ainda outro desafio decisivo: a desinformação. As redes sociais amplificam rumores, notícias falsas e conteúdos manipulados a uma velocidade impossível de acompanhar pelo jornalismo rigoroso. Miguel Carvalho alerta que até pessoas informadas acabam por difundir conteúdos falsos sem consciência do impacto: “Há cidadãos que partilham desinformação porque acreditam nela, sem perceberem que prejudicam o trabalho jornalístico e o valor de uma investigação feita a sério.”

O antigo jornalista da Visão denuncia também o papel dos partidos extremistas e populistas, que, segundo o autor do livro Por Dentro do Chega, “utilizam a desinformação como estratégia para influenciar a opinião pública”. E lembra como as consequências são cada vez mais visíveis na sociedade: “Esta prática não só distorce a percepção dos cidadãos como fragiliza a democracia e agrava ainda mais o trabalho dos jornalistas de investigação, que se veem obrigados a desmentir falsidades num ritmo desigual.”

O lado das chefias

Enquanto os jornalistas são condicionados pela falta de meios, pressões externas e a constante corrida contra a desinformação, as chefias também lidam com um dilema complexo. Hugo Matias, editor-chefe da CNN Portugal, explica que “gerir uma equipa não é apenas coordenar tarefas, mas equilibrar ambições editoriais com a sustentabilidade económica da empresa e a proteção dos profissionais”. Como revela: “Há sempre decisões difíceis. Nem tudo o que seria ideal para investigação é possível, porque temos de pensar na sustentabilidade da redação e da empresa.”

Hugo Matias, editor-chefe da CNN Portugal, aponta os principais desafios de trabalhar sob o imediatismo das televisões

Apesar das limitações, Hugo Matias acredita que “existe um esforço constante das chefias para criar condições que permitam aos jornalistas trabalhar de forma rigorosa e independente. Há uma procura incessante para que os profissionais possam fazer o seu trabalho da melhor forma possível, dentro do que é viável”. Dentro das escolhas das histórias há um critério: a história tem de ser revista e ver se vale a pena. Hugo Matias afirma que na CNN Portugal, as investigações são escolhidas pela própria história. “Tem que ser vista e revista por um conjunto de pessoas, por quem recebe essa denúncia, por pessoas que essa pessoa dentro da redação procura para perceber”, especifica. Nem todos os projetos podem avançar na íntegra. Algumas investigações são reduzidas, adiadas ou adaptadas, o que gera frustração entre as equipas. O editor-chefe da CNN Portugal sublinha que “o dia a dia das televisões é muito mais imediato. Nas televisões em particular, não é para o agora, é para o direto, para dar neste momento, para sermos primários. Isso é um desafio, uma obrigatoriedade que nos desafia diariamente”.

Ao mesmo tempo, a redação tenta conciliar a necessidade de imediatismo com a produção de trabalhos mais aprofundados e diferenciadores. Hugo Matias assegura que este equilíbrio é contínuo: “A investigação não pode ser infinita e o mercado português, com menor músculo financeiro comparado a outros, limita o alcance das investigações.”

Um editor-chefe tem – esclarece – “o ‘dever’ de proteger os jornalistas das pressões externas, como processos judiciais, assédio institucional ou exigências imediatas da audiência. É uma função que vai além de coordenar tarefas. Também tem de garantir que os jornalistas tenham segurança e apoio para investigar de forma séria, mesmo com condições adversas”. O jornalista da CNN Portugal reforça ainda que “é fundamental criar uma rede de proteção dentro da redação para que o jornalista saiba que não está sozinho quando enfrenta riscos ou pressões externas”.

Investigar exige tempo, o que o torna o processo demorado e dispendioso

Jornalismo de investigação, precisa-se

O jornalismo de investigação depende não só da coragem e dedicação dos jornalistas, mas também da capacidade das chefias em equilibrar restrições financeiras, exigências editoriais e ética profissional. Apesar dos desafios que o jornalismo enfrenta, é fulcral procurar soluções, ciente de que “o jornalismo é um bem público”. Muitos jornalistas defendem a intervenção do Estado. “Ultimamente, muitas decisões editoriais são dominadas por pessoas de marketing ou finanças, afastando os jornalistas das escolhas essenciais. Há uma necessidade de começar a defender o jornalismo como elemento básico de uma democracia plural ou, então, mais vale desistir de tudo isto”, defende Miguel Carvalho. Outra responsabilidade mais evidente parte, segundo Pedro Coelho, das universidades: “Há que garantir que o jornalismo continue a ser um pilar da democracia e a formação é essencial.” Hugo Matias defende que é fulcral a resolução da crise no jornalismo. “O jornalismo de investigação tem de continuar a existir”, conclui.

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