Fernando Esteves tem 52 anos, mas desde os 16 que queria ser jornalista. Movido pela paixão, largou tudo para acreditar no projeto a que chama de “game changer”: o Polígrafo. O jornal que fundou e que transformou a sua vida trouxe-lhe os momentos mais felizes e os mais difíceis da sua carreira. Assumidamente apaixonado pelo jornalismo, tornou-se diretor do jornal português mais reconhecido no universo do fact-checking.
Numa tarde de sábado, que parecia ser exatamente igual a todas as outras, o futuro de Fernando Esteves encontrou uma direção. Numa livraria em Lisboa, quando tinha 16 anos, ao folhear A Causa das Coisas, de Miguel Esteves Cardoso, o tempo passou num ápice. Assim que chegou a casa, investigou o autor e, ao ler o jornal O Independente, rapidamente percebeu que o jornalismo era o ofício a que ia dedicar o resto da sua vida. “Era um jornal inovador e que tinha também uma vertente de investigação jornalística que me seduzia e aí pensei que era isto que queria fazer.”
Fernando Esteves afirma ser uma pessoa que gosta de sair da sua zona de conforto e acredita que “a paixão se renova em função dos desafios que vão surgindo”. Despediu-se da revista Sábado, onde trabalhou durante 12 anos, para seguir o sonho de criar o seu próprio jornal. Fernando Esteves percebeu que o espaço mediático precisava de mais verdade, que surgiram com um jornalismo baseado em factos e com verificação rigorosa de informação. “Quando vi o movimento do fact-checking pensei: isto é completamente transformador. Vou fazer isto em Portugal.”
“Não fazemos nada de especial. Na verdade, fazemos aquilo que todos os jornais deviam fazer.”
Um ano e meio depois, em 2018, surgiu o Polígrafo, o primeiro jornal de fact-checking nacional. Nasceu em cafés e esplanadas nas ruas de Lisboa e, muitas vezes, esteve no limite da falência. O jornalista descreve o Polígrafo como um “Google da verdade”, uma ferramenta a que as pessoas recorrem quando questionam a veracidade das notícias. “Hoje as pessoas dizem: vamos ver o que diz o Polígrafo.” Assim, o projeto surgiu como resposta à crescente propagação de desinformação e de “fake news” no espaço mediático para garantir que o mundo do jornalismo e da informação se tornava mais fidedigno.

Para os jornalistas, muitas vezes, a escrita torna-se uma tentação inevitável. A influência da escola do jornalismo americano e a limitação que Fernando Esteves sentia para escrever no jornal e nas revistas onde trabalhou forma o empurrão necessário para dar o primeiro passo e escrever a primeira linha do seu primeiro livro. Para o jornalista, redigir um livro não é apenas um compromisso, tem também de ser uma obsessão. “Não conseguimos terminar de escrever um livro se não formos obcecados.”
A dedicação que coloca em todos os projetos escritos fez com que, até hoje, tenha escrito quatro livros. Três desses livros abordam temas relacionados com política, um tema muito central no seu percurso jornalístico, e o mais recente é focado nas fake news, um tema que tem dominado a sua vida enquanto jornalista nos últimos anos.
Fernando Esteves garante que o auge da carreira é sempre o momento que está a viver no presente. Com a certeza de que ainda há muito para realizar, desvenda a ponta do véu do projeto que lhe tem ocupado os dias. Numa tentativa de combinar a tecnologia e o rigor humano, porque considera que só assim poderá sobreviver o jornalismo do futuro, afirma que está a desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial para fact-checking em tempo real. “Acima de tudo, vai fazer com que as pessoas se vejam obrigadas a dizer a verdade. Mas a intervenção humana continua essencial para definir ângulos, decidir os temas, manter a sensibilidade.”

A necessidade de formar e inspirar novas gerações acompanha o percurso profissional de Fernando Esteves há vários anos por acreditar na importância que os novos jornalistas têm numa redação. Desde que fundou o Polígrafo, receber estagiários e prepará-los para o mundo do trabalho tem sido um dos seus grandes objetivos.
Para o jornalista, acompanhá-los ao longo desse percurso é algo que o fascina por gostar da sensação de ser útil e de os ajudar a “encontrar um propósito”. Com a passagem de vários jovens pela sua redação, reconhece que, apesar de existir talento, falta paixão entre os novos jornalistas. Ainda assim, a esperança de Fernando Esteves mantém-se e acredita na existência de futuros profissionais com capacidade para assegurar o jornalismo.