Dar e Receber: Transformar vidas com solidariedade

É no coração de Corroios que se encontra o Espaço Comunitário da Junta de Freguesia, um projeto que nasceu pequeno, mas que hoje é um verdadeiro motor de apoio, inclusão e dignidade para centenas de pessoas

Numa zona onde a carência, muitas vezes, se cruza com o silêncio e o isolamento, há um lugar onde a solidariedade tem rosto, voz e mãos que trabalham. Entre essas mãos, encontram-se as de Marta Esteves, assistente social da Junta de Freguesia de Corroios e responsável pela Dar e Receber, um projeto que tem melhorado o dia a dia de quem entra pela porta do Espaço Comunitário da Junta de Freguesia que promove esta iniciativa.  Tudo começou com uma pequena Loja Comunitária, à qual a população local aderiu com entusiasmo através da doação de roupa e alimentos. Em 2013, surgiu outra loja em Corroios, o que iria reforçar este sistema de doações, mas só em 2024 se concretizou a abertura do espaço atual, um verdadeiro centro de apoio social multifacetado.

O princípio é simples: quem ajuda, recebe. E esse equilíbrio entre dar e receber tem mantido viva uma estrutura que já conta com mais de 200 inscritos. “Uma pessoa vem cá e colabora connosco, ajuda a passar a ferro as roupas, dá seis horas do seu tempo, em contrapartida ganha pontos”, explica Marta Esteves, que explica que “esses pontos podem ser trocados por aquilo que mais precisam: roupa, livros ou até serviços.”

“Mesmo quem tem um emprego, muitas vezes com o salário mínimo, não consegue pagar uma renda abaixo dos 600 euros aqui no Miratejo”, lamenta Marta Esteves. “O nosso projeto é um suporte crucial para muitas famílias.”

No sistema de trocas da Dar e Receber, tudo é válido para ajudar, desde trabalho voluntário, a doação de roupa ou partilha de conhecimentos de natureza diversa

O sistema de troca de pontos é o pilar da iniciativa. Por seis horas de trabalho voluntário, uma pessoa recebe cerca de 30 pontos, que pode depois utilizar, por exemplo, para adquirir um pacote de leite (1 ponto), fraldas (6 pontos) ou produtos de higiene (2 a 3 pontos). “Mesmo quem tem um emprego, muitas vezes com o salário mínimo, não consegue pagar uma renda abaixo dos 600 euros aqui no Miratejo”, lamenta Marta Esteves. “O nosso projeto é um suporte crucial para muitas famílias.”

E não é só de necessidades materiais que se trata. Marta Esteves reconhece que a solidão e os problemas de saúde mental são dos maiores desafios enfrentados pela comunidade. “Muitas pessoas são-nos encaminhadas porque precisam de ajuda ou porque se sentem muito sozinhas.”

A assistente social Marta Esteves é a responsável pelo sucesso deste projeto de solidariedade da Junta de Freguesia de Corroios, juntamente com o vogal da ação social, Manuel Gameiro

Muito mais do que roupa: aqui cria-se pertença

No espaço, há várias salas, cada uma com uma função, uma dinâmica e uma alma própria. A mais frequentada é a da roupa, onde diariamente se dobra, escolhe e organiza o vestuário que chega através de doações. Rosa, uma voluntária assídua, trabalha neste lugar com entrega absoluta. “Estava a passear sozinha quando entrei na lojinha antiga. Hoje, se eu não vier à loja, fico triste. Tenho pessoas aqui que guardo no coração”, partilha com brilho nos olhos. “Até podia dormir aqui.”

Na sala de atividades e convívio, as tardes são preenchidas com costura, trabalhos manuais e conversas. É ali que nascem os famosos “Relvinhas” e as Abayomis, bonecas de pano que representam afeto e resistência. É também neste lugar que se partilham dores e superações, como confessa Manuel Gameiro, vogal da ação social da Junta de Freguesia de Corroios: “Quando andava cabisbaixo, por motivos de saúde, foi nesta sala que fui buscar forças.”

Mais do que um lugar de solidariedade social, o espaço da Dar e Receber é, sobretudo, um lugar de pertença que conquistou a Bandeira de Mérito Social, da ANGES

A biblioteca comunitária integra o projeto “Ler Alimenta”, onde livros são trocados por alimentos. O objetivo é duplo: promover a leitura entre os mais novos e aliviar a pressão financeira sobre as famílias. Alda Colares, responsável pela biblioteca, recorda o início da ligação ao lugar que muitos já têm como uma segunda casa: “Quando este espaço abriu, candidatei-me logo. Felizmente, fui aceite. As pessoas foram muito acolhedoras e temos recebido cada vez mais gente.”

Entretanto, o projeto teve de se adaptar. Após detetarem que alguns trocavam grandes quantidades de livros por alimentos básicos para revenda, os responsáveis ajustaram os critérios de troca de modo a manter o equilíbrio e a justiça do sistema. Ou seja, determinado livro tem um produto correspondente de igual valor.

Encontrar um rosto amigo, aprender a língua, ler um livro ou simplesmente brincar são motivos para quem visita a associação regressar

Aprender, partilhar e crescer

Há também uma sala de aulas de português para estrangeiros, que já serviu de palco para reuniões de freguesia e eventos culturais. Um dos rostos frequentes destas aulas é o de Kiran Djamil, imigrante do Paquistão. “Este espaço é muito importante para mim. Não falo bem português, mas aqui aprendo a comunicar melhor com os outros. Recomendo a todos os imigrantes. Podemos aprender a língua e também ter acesso a roupa, alimentos, brinquedos, produtos de higiene…coisas que muitos não conseguem comprar quando chegam.”

Além da vertente social, o projeto é pautado por fortes preocupações ambientais que são visíveis no programa “Ser sustentável em rede”, o qual incluiu, entre outras ações, reutilização de materiais e um desfile de moda ecológica

O projeto vai além da resposta às carências básicas. Em Corroios, o apoio social veste-se também de cultura e de consciência ambiental. O desfile de moda ecológica, parte do programa ‘Ser sustentável em rede’, é exemplo disso. Neste projeto, as participantes transformam roupas velhas e resíduos reutilizáveis em peças criativas, promovendo a sustentabilidade e retirando pessoas do isolamento. “A moda, aqui, é uma forma de ativismo e inclusão”, sublinha Marta Esteves.

E não é tudo. Todas as quintas-feiras de manhã, um grupo de idosas ensina costura a crianças de um jardim de infância local. Um momento de ternura intergeracional que alimenta memórias, saberes e afetos. No espaço mais discreto, a antiga loja, é possível trocar pontos por arranjos de costura, brinquedos e outras necessidades. Apesar de menos visível, é um ponto de grande afluência, sobretudo para famílias com crianças.

“Ninguém está parado. Se uma pessoa estiver aqui sem fazer nada, acaba por se cansar. Tendo algo para fazer, o tempo passa mais rápido”, nota Marta Esteves. O objetivo é claro: não criar dependência, mas sim participação. “O maior desafio no nosso projeto é a integração”, afirma Manuel Gameiro. “Mas este não é um espaço de esmola. É um lugar onde as pessoas trabalham, colaboram e recebem uma recompensa. E, mais importante ainda, sentem-se felizes enquanto cá estão.”

Ao longo dos anos, o projeto foi-se enraizando na freguesia. Ganhou força, projeção e o reconhecimento chegou com a atribuição da Bandeira de Mérito Social da ANGES- Associação Nacional de Gerontologia Social. O mais valioso continua a ser o impacto direto na vida das pessoas. Manuel Gameiro conta a história de uma mulher que apareceu à porta, sem comida em casa, e que precisava de roupa para os filhos: “Propus-lhe várias tarefas no espaço e ela aceitou antes de eu acabar de falar. Desde então, vem sempre com um sorriso no rosto.”

A Dar e Receber tem marcado a diferença junto da comunidade . Há sempre algo para partilhar e qualquer coisa para levar, num sistema regulado de pontos

Entre roupas passadas a ferro, livros trocados por alimentos e linhas que cosem mais do que tecidos, há neste espaço um princípio maior: a solidariedade só faz sentido quando é feita de mão dada, com tempo, atenção e vontade. O que começou como uma pequena loja de bairro é hoje um pilar da freguesia. Um exemplo de como se pode fazer política social com humanidade. Um lugar onde, como dizem os próprios, “quem vem para dar, acaba sempre por receber”.

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