Vasco Manuel cresceu a trabalhar nos campos agrícolas de Alenquer, tornou-se soldado aos 20 anos e viveu grande parte da vida sem eletricidade e meios de comunicação. No corpo e na memória, carrega a experiência da vida rural, da guerra em Angola e do atraso da aldeia.
Vasco Manuel nasceu em fevereiro de 1942, numa casa de paredes frias e janelas viradas para a Serra de Montejunto, na aldeia de Cabanas de Torres, concelho de Alenquer. Filho de agricultor, cresceu rodeado pelo campo que se estendia à porta de casa e por animais, desde galinhas e coelhos até bois e burros.
A rotina depois da escola não variava muito: ia direto para os terrenos do pai, onde as tarefas agrícolas o esperavam. “O trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”, afirmava o pai, sempre que alguém questionava por que colocava o filho pequeno a trabalhar. Aos 12 anos, Vasco Manuel concluiu a quarta classe e dedicou-se a tempo inteiro à agricultura. “Conforme a época, eu ia ceifar, semear, cuidar das vinhas, trabalhar com os bois”, explica.
A vida não era só lavoura: tocava trompete na orquestra, dançava o rancho folclórico e participava em marchas e recitações de poemas. Era, porém, na caça que mais se destacava. Desde pequeno percorria os campos acompanhado por galgos e rafeiros e ganhou fama como o melhor caçador “de pau”. Mais tarde, tornou-se caçador profissional de espingarda.
A sua época favorita do ano era a festa de São Gregório, quando a aldeia se juntava para celebrar o seu santo padroeiro. Era um momento especial em que ele e o irmão estreavam um fato novo. “Tenho memórias muito boas dessa festa”, lembra. Nessas ocasiões, a aldeia recebia quem vinha de fora.
“Quando eles vinham de Lisboa para cá para a festa eram tratados como uns senhores, faz de conta que vinham de outro mundo.”
Sem eletricidade e sem qualquer meio de comunicação, Vasco Manuel sempre conheceu uma realidade muito diferente daquela que se vivia na capital: “Eles contavam coisas que a gente cá não sabia.”
Não havia televisão, rádio ou jornais, tinham apenas um único telefone público para contactar com o exterior. A informação era passada de boca em boca e limitava-se à vida local. “Gostávamos de saber as notícias cá da terra, do resto do país passava ao lado”, admite. Ainda hoje, essa lógica mantém-se: “As informações mais importantes do resto do país vejo-as na televisão, mas não me interessa muito; interessa-me as coisas da terra.”
Aos 20 anos, Vasco Manuel foi chamado para a tropa. De um dia para o outro, deixou os terrenos onde crescera e apresentou-se para seis meses de instrução rigorosa. Depois, seguiu para Angola, onde permaneceu por mais 26 meses. A partir desse momento, começou a ser conhecido apenas pelo número 529.
As cartas tornaram-se a única forma de manter viva a relação com a futura mulher, que conhecera ainda em criança, na escola da aldeia. O som do avião que largava o correio era o momento mais esperado do dia. “Era uma alegria quando víamos o avião a sobrevoar a pista”, recorda.
Para Vasco Manuel, a memória mais marcante da guerra remete para o dia em que, durante uma operação, avistou uma arma checoslovaca nova, ainda com quatro balas. Sem hesitar, correu para a recuperar em plena linha de fogo. O gesto valeu-lhe não só um raro prato de batatas com bacalhau, como um convite para representar o pelotão do seu alferes num evento especial. A operação rendeu ao alferes uma condecoração e o ato de Vasco foi apontado como decisivo.
Recorda essa noite, seis décadas depois, com lágrimas nos olhos: “Ele é que recebeu o louvor, mas os meus colegas acharam que eu é que devia ter recebido.”
Quando o número 529 se transformou novamente em Vasco, já se tinham passado cerca de três anos. Uma camioneta de carga e uma avioneta improvisada marcaram o percurso de regresso. “Éramos três e a avioneta só levava dois. Então, tirámos rifas para ver quem ia, e eu voltei”, conta.
Quando finalmente chegou, encontrou uma aldeia parada no tempo: “Quando voltei da tropa, ninguém cá tinha televisão ainda.” A inovação chegava mais lentamente à terra. Nessa altura, em Lisboa, a televisão já era um aparelho comum nas casas há cerca de oito anos e os telefones já estavam presentes antes do nascimento de Vasco.
A primeira televisão a aparecer em Cabanas de Torres foi a do café do Zé Abel: um aparelho a bateria que fazia encher a sala sempre que havia tourada. Vasco Manuel não perdia uma transmissão. “O pior era quando estava a dar a tourada, o motor ia-se abaixo e ficávamos sem televisão”, lembra. No caso dos telefones, a espera foi ainda maior. Vasco Manuel já tinha 40 anos quando passou a ter um em casa.
Numa aldeia com poucas oportunidades, Vasco chegou a ponderar emigrar, mas o pai negociou um futuro ali, prometendo-lhe apoio para a carta de condução, uma casa construída de raiz e um salário justo se voltasse para o trabalho diário na agricultura. “Às vezes, pagava-me mal”, reconhece. E acrescenta: “Lembro-me de um dia em que não tinha dinheiro para ir ao baile, mas o meu pai tinha-me dado uma uva para eu amanhar então eu vendi a uva e fui.”
A promessa da casa foi a única cumprida, quatro anos depois. Custou 40 contos e tornou-se o primeiro lar de Vasco, da mulher e dos três filhos, já com eletricidade. Aos 35 anos, cansado dos baixos salários, decidiu mudar de rumo. “Andei sempre na agricultura, foi uma vida de miséria, não havia dinheiro para nada.”
Começou a trabalhar na Fábrica de Papel Coel, onde operava máquinas na área da tipografia. “Cheguei a trabalhar em seis máquinas”, refere. Aos 50 anos, assumiu o cargo de secretário da Junta de Freguesia, onde permaneceu durante 15 anos. Fez um curso de computação para desempenhar a função, embora admita que nunca chegou a dominar o computador e que, com o tempo, esqueceu por completo aquilo que aprendera.
Reformou-se aos 65 anos e dedicou-se à agricultura para consumo próprio. Atualmente, com 83, passa os seus dias a cultivar, a cuidar dos animais e a ver os aviões passar, ao lado da sua mulher.
Apesar de alguns sinais de modernidade, a essência da aldeia mantém-se: “As tecnologias não mudaram assim tanto para nós. Aqui a vida é igual.” E, no fundo, é isso que mais valoriza. “O que existe cá, melhor e com mais fartura, é o sossego.”