Música antiga em mãos jovens

Na Escola Artística do Conservatório Nacional, que assinala 190 anos, alunos e professores testemunham o crescimento do interesse pela música antiga em Portugal. É “fixe” tocar cravo, harpa ou alaúde

“Não sabia o que era um cravo. Vi-o pela primeira vez, experimentei e pensei, uau, isto é muito fixe!”, conta Joana Soares entre risos, em frente ao cravo de madeira avermelhada que ocupa a pequena sala de música. Aos 15 anos, a jovem cravista fala do instrumento com a naturalidade de quem já descobriu desde cedo o seu destino na música.

À primeira vista, o cravo pode confundir-se com um piano antigo. A forma é parecida, mas a sonoridade é totalmente distinta. Enquanto o piano moderno produz som através de martelos que percutem as cordas, o cravo funciona por um sistema de pinças que beliscam as cordas, resultando numa sonoridade mais delicada e única. A música antiga tem essa característica mais emocional e é precisamente esta leveza que atraiu Joana. “Não é épica como a música que vem depois, mas toca ali no coração das pessoas”, explica.

“Bach, Vivaldi, Tchaikovsky, Shostakovich, Schumann…” a enumeração de artistas que a inspiram surge espontaneamente, cheia de entusiasmo e acompanhada de um brilho nos olhos. “Bach é um génio”, diz sem hesitar, “Tem imensa técnica e noção. Faz fugas, aparece um tema, depois o tema é invertido… é algo de outro mundo!”

Aluna da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, Joana iniciou o seu percurso ainda no primeiro ciclo a tocar em pequenos pianos de brinquedo. Foi a partir deste primeiro contacto inicial que os pais então sugeriram um ensino mais aprofundado. No momento de admissão para o Conservatório, a jovem dividia-se entre dois instrumentos: o contrabaixo e o cravo. Apesar de ter obtido melhor nota no primeiro, a intuição e familiaridade com as teclas tocou mais alto, o que a levou a escolher o segundo.

A paixão de Joana não é um caso isolado. Embora continue a ser um nicho dentro do universo musical, a música antiga tem vindo a conquistar, de forma gradual, mas consistente, novos públicos, principalmente, os mais jovens. Em Portugal, este interesse renovado começou a ganhar força a partir da década de 1960, inserido num movimento europeu de redescoberta de repertórios e instrumentos históricos.

Cândida Matos, professora de cravo no Conservatório há 25 anos, acompanha esta transformação de perto, “Quando comecei a estudar, havia duas escolas, no Porto e em Lisboa.”, recorda. “Agora, temos mais de 30 escolas com ensino de Cravo e cada vez mais interesse dos jovens pelo cravo, mas também pela música antiga de modo geral.” Para a docente, este crescimento é sinal de uma mudança de mentalidades e de uma maior valorização do património musical.

A explicação para este fenómeno, segundo Helena Raposo, professora de Alaúde, passa também por um certo cansaço face aos percursos musicais mais convencionais: “As pessoas estão saturadas. Largam os instrumentos que conhecem e começam a tocar cravo ao invés de piano e violino barroco, ao invés de violino moderno”. Para Helena Raposo, a criação recente do Departamento de Música Antiga, do qual é coordenadora, contribuiu para legitimar este interesse e para combater a ideia de que este repertório é secundário face à música clássica posterior. “Hoje, temos um lugar de mais respeito. Pais e filhos têm a oportunidade de contactar com instrumentos que nunca viram, nem sabiam nomear, mas que agradam imediatamente pela suavidade do som.”

É nesse contexto que se insere o percurso de Gabriel Coelho, de 14 anos, aluno de Alaúde desde os oito. Antes tocava harpa, mas não conseguiu vaga no Conservatório com este instrumento. Foi o pai quem optou por inscrevê-lo em Alaúde. Uma escolha que, apesar de não ter sido inicialmente sua, se transformou numa verdadeira paixão. “Quando digo aos meus amigos que toco alaúde, a reação é sempre a mesma: ‘Ah, que fixe! O que é isso?”, conta. É a partir dessa curiosidade que o jovem sente estar a cumprir uma missão maior. “É preciso passar a cultura do passado para o presente. Acho isso muito importante.”

Em 2025, o Conservatório Nacional celebrou 190 anos, reafirmando-se como uma das principais instituições de ensino artístico de Portugal. Fundado em 1835, ocupa um lugar central na história do ensino musical do país. Localizado em Lisboa, a escola mantém uma forte ligação com a vida cultural da cidade, funcionando não apenas como local de aprendizagem, mas também como um polo de produção artística e de circulação de conhecimento musical.

Nos últimos anos, o Conservatório tem vindo a reforçar uma visão mais plural do ensino da música, abrindo espaço para repertórios e práticas que durante anos permaneceram periféricas. Como é o caso do Departamento de Música Antiga, que inclui instrumentos como cravo, alaúde, harpa, órgão e flauta de bisel. Foi criado há apenas um ano e meio, por iniciativa do atual diretor Cândido Fernandes. Pianista de formação, é descrito pelos alunos e professores como um entusiasta da música antiga. Para o diretor, o ensino desta vertente é fundamental não apenas como forma de preservar a tradição do Conservatório, mas também como ferramenta de formação humana. “A música ajuda em qualquer outra disciplina, seja escolar ou da vida”, afirma.

A escola destaca-se pela intensidade e pelo ritmo de trabalho exigido aos seus alunos. Com uma carga diária média de cinco a seis horas de estudo e aulas, a instituição promove uma disciplina rigorosa que ultrapassa o domínio artístico. Um esforço que, segundo Cândido Fernandes, desenvolve competências essenciais como disciplina, concentração e gestão de tempo. Qualidades que se refletem tanto no percurso académico como na formação pessoal dos estudantes. Assim, entre salas discretas, instrumentos históricos e jovens curiosos, a Escola Artística de Música do Conservatório Nacional mantém vivo o seu legado histórico e musical através de alunos como a Joana e o Gabriel, que trazem um novo tom à música antiga.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *