
“Quando subimos ao mastro pela primeira vez, o corpo treme, não só de medo, mas de reverência. Lá em cima, com 40 metros de altura, sente-se que se é menos do que um grão de areia. E mesmo assim, está-se responsável por uma vela que pode decidir o rumo do navio.” As palavras são de Raul Monteiro, ex-tripulante do navio-escola Sagres, em 1983. Quem atravessou o mundo a bordo do navio-escola Sagres nunca mais esquece a experiência. Nascido em Hamburgo, em 1937, o navio-escola da marinha alemã com o nome de Albert Leo Schlageter passou, durante a Segunda Guerra Mundial, para propriedade do Brasil, até que foi comprado por Portugal, em 1961. Desde então, é a embarcação-símbolo da Marinha Portuguesa, com um mastro imponente, mais de 20 velas e o pavimento de teca polido a cada alvorada.
Concluídos os preparativos logísticos e operacionais para uma nova grande viagem de quatro meses, o Sagres partiu da Base Naval de Lisboa a 30 de abril e, no mapa, tem assinaladas escalas em vários portos, como Nova Iorque, Norfolk, Baltimore, Boston e, entre outros, New Bedford, nos Estados Unidos, mas também Hamilton, nas Bermudas, território britânico ultramarino. Na viagem de regresso, tem ainda prevista paragem, a 9 de agosto de 2026, na Praia da Vitória, na Ilha Terceira, e a 13 de agosto, em Ponta Delgada, São Miguel, Açores. O navio português conta, segundo a Marinha Portuguesa, “com uma guarnição base composta por 107 militares, aos quais se juntam 77 cadetes da Escola Naval (do 1.º e 2.º ano) e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e um Cadete da República da Roménia”.
Com esta nova missão, a Marinha portuguesa pretende reforçar, mais uma vez, a presença diplomática de Portugal no mundo, formar uma nova geração de cadetes e continuar a tradição de excelência náutica. “A missão tem um enorme significado simbólico e formativo. Esta nova viagem é mais uma página na história centenária do navio”, adiantou a Marinha Portuguesa. Os planeamentos envolveram semanas de coordenação: desde a definição das rotas e contactos internacionais, até à manutenção intensiva do navio e à seleção da guarnição. Enquanto o “velho lobo do mar” rasga o oceano em direção à Costa Atlântica dos Estados Unidos e enfrenta a forte agitação marítima que se tem feito sentir, vale a pena recordar por que se tornou orgulho de uma nação, em especial, dos que seguiram a bordo.
No mar não há espelhos
Quem serviu no Sagres sabe: a bordo, não há tempo para vaidades. A vida é preenchida de turnos exaustivos, manutenção rigorosa, disciplina naval e camaradagem quase fraterna. “As manhãs começavam às seis em ponto. Uniforme impecável, ponte limpa, cordame inspecionado. Depois, instrução. Aprendíamos a navegar pelo sol e pelas estrelas, como se ainda estivéssemos no século XIX”, conta Manuel Casimiro, outrora tripulante da circum-navegação de 1984. “O mar impõe regras.” Ao largo do Cabo Horn, uma das zonas mais temidas por qualquer marinheiro, a tripulação enfrentou ventos de 60 nós e vagas de sete metros. “Estávamos a sul do mundo. O frio cortava como navalhas. Um cabo quase levou um camarada ao mar. Foram 48 horas sem dormir. O navio gemia, mas seguia”, lembra ainda o ex-marinheiro.

Há quem diga que, depois de atravessar aquilo, nada mais assusta. “Ou talvez tudo nos assuste menos”, corrige Manuel Casimiro. Enquanto o navio atravessa oceanos, há quem viva preso ao cais. Famílias que contam os dias, mães que olham o relógio à hora do jantar e ouvem o silêncio, filhos que aprendem a desenhar barcos antes de dizerem “papá”. Em 1983, Albertina Monteiro escrevia cartas semanais ao filho embarcado, Raul Monteiro. Só parte delas chegou ao destino. “Às vezes, recebia-as todas de uma vez. Outras vezes, nem sequer sabia se ele estava bem. Só ouvia o nome do navio nas notícias”, conta. Hoje, as comunicações são mais frequentes, mas a ausência pesa do mesmo modo. Meses em alto-mar são sempre meses fora do mundo.
Viver com o mar debaixo dos pés
Viver no Sagres não é como num cruzeiro. Os beliches são curtos, os duches racionados e as refeições simples. Mas o maior luxo é outro: a partilha. “Aprendemos a respeitar quem dorme ao nosso lado, quem vigia connosco à meia-noite, quem segura a vela connosco na tempestade”, explica Raul Monteiro.
Numa volta ao mundo com mais de 30 portos, o Sagres nunca para. Há também tempo para cerimónias e tradições: o batismo do neptuno quando se cruza o Equador, as formaturas nos portos estrangeiros, os hinos que se ouvem ao entrar em águas internacionais. “Lá fora representamos o país. Cá dentro aprendemos o que é ser do mar.”
Os turnos dividem-se em “quartéis”: manhãs passadas a polir latão ou a treinar manobras com os cabos, tardes de formação náutica, noites de vigia em grupos rotativos. Há sempre alguém de serviço; sempre alguém acordado, mesmo que o mar esteja calmo como um lago ou revolto como uma fera. “O navio nunca dorme”, diz Raul Monteiro. “E nós aprendemos a dormir quando podemos, não quando queremos.”
A logística envolve uma complexidade que poucos imaginam. Desde a manutenção dos equipamentos náuticos e dos sistemas de comunicação até à gestão de alimentos e materiais de reparação, tudo tem de ser pensado com semanas, às vezes meses, de antecedência. “Montar esta viagem é como organizar uma expedição polar”, compara Manuel Casimiro. “É preciso prever avarias, responder a necessidades médicas e, sobretudo, deixar margem para os imprevistos, que no mar são regra e não exceção.”
O Sagres também é escola. As manhãs incluem aulas práticas de navegação astronómica, meteorologia ou história naval. As noites são aproveitadas para estudar, ou quando a exaustão vence, simplesmente descansar os olhos ao som das vagas. A formação é exigente. Mas é na camaradagem que muitos encontram o verdadeiro combustível da viagem. “Há noites em que o mar está revolto e só não saltamos ao mar porque há um colega ao nosso lado a fazer piadas”, desabafa Manuel Casimiro. “E depois há os dias em que alguém partilha connosco o último pacote de bolachas ou um conselho vindo de casa. Isso é que é família.”
A convivência é, por vezes, tensa. Pequenos atritos tornam-se grandes quando se está fechado num espaço exíguo durante meses. Mas aprende-se a resolver, a ceder, a respeitar. “O mar tira-nos as máscaras”, resume o antigo marinheiro. “E quando ficamos sem máscaras, aprendemos a ser melhores”.
Portos que ficam na pele
Na circum-navegação de 1983-84, o percurso levou a guarnição por Las Palmas, Cabo Verde, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Cidade do Cabo, Maputo, Singapura, Manila, Tóquio, Honolulu, San Diego, Nova Iorque e Londres, entre outras dezenas de paragens. Em cada uma, havia cerimónias navais, visitas diplomáticas e, sempre que possível, algum tempo livre para os cadetes e marinheiros explorarem a cidade. “A primeira vez que pus os pés em Nova Iorque foi como se tivesse atravessado uma década. Era tudo diferente: o ritmo, a língua, até o cheiro da rua”, lembra Manuel Casimiro.
Nem tudo era festa. Cada porto implicava trabalho redobrado. Limpezas intensas, ensaios de formaturas, visitas oficiais, jantares de gala. E depois, inevitavelmente, a partida. “Deixar o porto era sempre agridoce. Estávamos cansados, queríamos voltar ao mar, mas sabíamos que cada escala podia ser a última oportunidade de descanso verdadeiro durante semanas”, confessa Raul Monteiro. Alguns tripulantes já tinham estado nalguns portos, sobretudo os mais experientes, mas para muitos, tudo era novidade. “Nunca tinha saído da Europa. Quando cheguei ao Brasil, senti-me meio em casa e meio no estrangeiro. Foi estranhamento bonito”, afirma o ex-tripulante.
Em cada porto onde o Sagres atracava, algo ficava guardado. Não só objetos ou cartas, mas também histórias e memórias partilhadas. “Era comum trocarmos pequenos presentes com as marinhas locais: flâmulas, canetas, emblemas, até chocolates”, conta Manuel Casimiro. Essas simples trocas criavam ligações que iam além do tempo que o navio passava no cais. E, por mais que cada porto deixasse a sua marca, o chamar do mar era sempre mais forte e rapidamente era hora de zarpar novamente.
O regresso ao Tejo
A última escala é sempre a mais aguardada. Depois de meses a bordo, a atravessar oceanos, continentes e memórias, a aproximação ao estuário do Tejo tem um sabor difícil de descrever. Ao longe, surge a Torre de Belém, como se fosse a primeira vez. Famílias acotovelam-se no cais, há lágrimas contidas e gritos de euforia. “Portugal tem outro cheiro quando se regressa do mar”, diz Raul Monteiro. “Cheira a casa”.
O Sagres entra em Lisboa escoltado por embarcações menores, com as velas içadas ao máximo e um orgulho visível. Soam sirenes. Agitam-se bandeiras. O navio que partiu com um mar inteiro pela frente regressa agora com o mundo na memória. E na alma de cada tripulante, a certeza de que nenhuma viagem os deixará iguais. “Aprendemos a navegar, mas acima de tudo aprendemos quem somos longe de terra firme”, partilha Manuel Casimiro. No regresso, os reencontros são cenas de cinema. “No cais, parece que o tempo parou. Mas quem volta já não é o mesmo que partiu”, observa Maria Casimiro. “Os olhos trazem histórias que não cabem numa frase”.
O Sagres segue. E com esta embarcação-escola, seguem também memórias que não largam a pele de quem já sentiu o seu convés balançar. “O navio muda-nos”, relata Raul Monteiro. Enquanto houver velas ao alto, vento no pano e olhos postos no horizonte, o mar continuará a ser sala de aula, palco de reencontros e espelho de identidade. E o Sagres, esse, continua a navegar, a cruzar oceanos, a formar cadetes e alimentar o legado flutuante do NRP Sagres. No dia 23 de agosto, se tudo correr, é tempo de voltar ao Tejo.