Coleção com 1200 peças preserva a memória de Amália

Desde os cartuchos ao CD digital, passando pelo vinil e pela cassete, multiplicam-se edições portuguesas, espanholas, inglesas, francesas, belgas, holandesas e italianas, a par de livros, cartazes de espetáculos, serigrafias, obras plásticas e esculturas. Não é um museu, mas sim um espaço onde um colecionador mantém viva a memória e uma voz que “já não cabia dentro daquela assoalhada”.

Ricardo Nunes, 56 anos, é professor na área das Ciências da Comunicação, no Instituto Politécnico de Setúbal, e cresceu acompanhado pela música. “Em minha casa sempre se escutou música, que é um hábito que mantenho até os dias de hoje. Eu preciso sempre de ter uma banda sonora para a vida”, confessa. Recorda como a música foi sempre uma constante da cozinha à sala aos rádios que circulavam entre o quintal e a garagem, enfatizando a expressão particular que o fado sempre teve. Apesar da admiração por Amália Rodrigues vir do berço familiar, o apreço pela cantora só surgiu no início da sua vida adulta. “A entrada numa nova era da minha vida fez-me entender a gigantesca e invulgar capacidade interpretativa daquela que é a maior referência não apenas no fado, mas na canção e no mundo artístico”, afirma. O apreço pela artista não é algo consolidado, visto que é “um apreço crescente”. “Não é algo que se encontra sempre com a mesma bitola. Existem sempre descobertas a fazer, novas formas de escutar, de sentir”, explica.

O início da coleção

 Ao longo de décadas tem vindo a reunir objetos sobre a fadista. Hoje, a coleção conta com cerca de 1200 peças, que representam “um viver”. No Facebook, através da página “Remembering Amália Rodrigues” e da sua pessoal, dá a conhecer o acervo que possui e também aspetos de natureza biográfica e histórica da fadista.

A coleção começou quando Ricardo Nunes ainda era estudante de Comunicação Social, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Quando não passava as tardes a estudar, percorria alfarrabistas e antiquários “na Rua de Santa Marta, em São Bento e pela Almirante Reis”, os seus espaços de eleição. Uma das primeiras peças foi uma partitura do Foi Deus e, nesse momento, sentiu “um fascínio muito grande por estar perante um documento histórico”, despertando um gosto crescente pela procura de peças ligadas a Amália Rodrigues.

A coletânea acumulada pelo colecionador é diversificada e vai além da parte fundamental, no que diz respeito à edição discográfica. “Tenho desde os primeiros discos gravados no Brasil até chegarmos à era do digital e com os CDs”. São centenas de álbuns, que acabam por ser reproduzidos de acordo com discográficas de vários países um pouco por todo o mundo. Usando a música Vou Dar de Beber à Dor como exemplo, Ricardo Nunes esclarece que “para um colecionador é importantíssimo, além das edições portuguesas, também as espanholas, inglesas, francesas, belgas, holandesas, italianas, sendo que quantas mais referências existirem sobre uma só edição, estimula o espírito da conquista. Indo depois em busca dos diferentes formatos, desde disco, cartucho, cassete, os iniciais de baquelite e depois o vinil até ao CD”. A coleção diversifica-se com a presença de livros, cartazes de espetáculos, serigrafias, obras plásticas e esculturas.

Entre as vastas peças do conjunto, existem três que o colecionador destaca, “por questões exclusivamente emocionais, não patrimoniais ou documentais”. As duas primeiras são ambas livros, a biografia de Amália e um livro editado pela cinemateca, Amália no Cinema. Estas obras, além de autógrafos, contam com dedicatórias escritas nas duas circunstâncias em que a conheceu e que teve a oportunidade de a entrevistar. A terceira peça enaltecida é a reprodução da peça escultórica de Joaquim Valente, que é o busto de Amália. A peça serviu de base para uma fotografia de Nuno Calvé. “É um dos álbuns mais emblemáticos de sempre e que, nunca tendo tido nome de batismo, ficou conhecido como o álbum do Busto, porque é justamente a fotografia dessa mesmíssima peça”, explica. Além disso, a obra em questão marca o momento em que Amália e Alain Oulman se juntam, como descreve Ricardo  Nunes, “num processo criativo absolutamente ímpar e extraordinário que mudou radicalmente o rumo do fado na sua composição musical, mas também na escolha de reportório do ponto de vista da poesia e das letras”. Motivos que, para o colecionar, conferem às três peças um valor especial.

Uma voz absolutamente única

Antes da sua ascensão, Amália Rodrigues não tinha repertório próprio. Cantava aquilo que era obra de outros, mas ela dizia – conta – “que a voz dela já não cabia dentro daquela assoalhada e que precisava de uma outra métrica na poesia, precisava de outra métrica na música”. Alain Oulman surge na sua vida para lhe dar esse espaço de liberdade. “Teve a capacidade para conseguir interpretar que o tesouro vocal de Amália não podia ficar espartilhado naquela que, no fundo, é uma forma clássica e convencional de fazer fado”, declara. A partir daí, o fado ganhou uma dimensão que nunca tinha tido. “Amália conseguiu sair daquela pequena assoalhada e transformou o fado num espaço de uma latitude e uma longitude, que nunca tinha sido observado.” Ricardo Nunes defende que “ainda hoje e para o futuro, aquilo que aconteceu nos anos 50, 60 e 70 vai continuar a ter um grande impacto naquilo que é hoje a produção musical e, nomeadamente, na produção de fado”.

Nascida em 1920, Amália Rodrigues viveu num período e num contexto de uma ditadura, que, em palavras do colecionar, “subjugou as mentes e alimentava a ignorância”. Ainda assim, mesmo em circunstâncias muito difíceis, houve, na opinião do admirador da diva do fado, “uma capacidade imediata para reconhecer, que está aqui qualquer coisa absolutamente único e invulgar”.

Reconhecendo o papel determinante de Amália Rodrigues na projeção de Portugal para o estrangeiro, o colecionador recorda a primeira saída a Madrid como um “rotundo, rotundo sucesso”. Como recorda: “Foi o filme Os Amantes do Tejo, de Henri Verneuil, que a catapultou para Paris. Amália captou a atenção do grande empresário da época, Bruno Coquatrix, o proprietário da sala mais exuberante e mais internacional, onde todas as vedetas gostavam de cantar, o Olympia. A partir daí, o mundo começou a ter contacto com a invulgaridade, com alguém que conseguiu elevar a cultura portuguesa e o nome de Portugal a um patamar, que, com toda a certeza, só o desporto com Eusébio é que tinham conseguido.” Para o professor, significa reconhecer Portugal e parte da cultura nacional. “Amália Rodrigues era ‘uma mulher do mundo’. Apesar da maior parte do mundo não perceber nada da língua portuguesa, quando se deslocava ao Reino Unido ou a Nova Iorque enchia salas e não eram salas de centenas, mas de milhares de lugares.”

Uma das principais conquistas para a afirmação de Amália Rodrigues e da cultura portuguesa no exterior foi – confidencia – “o facto de muita gente ter começado a aprender a língua portuguesa justamente por ter escutado Amália. Sendo esse o prémio maior, tendo a capacidade de tocar corações de forma expressiva, de pessoas que desconheciam zero em relação à língua”.

Numa época de uma ditadura, que usava como pilares os três F’s, essa nunca foi uma preocupação de Amália. O fado e a música eram apenas uma forma profissional de se assumir. “Nunca teve a veleidade de pensar ‘eu vou ser a bandeira deste país.” O colecionar considera que “foi por Amália ser quem era, por ser absolutamente notável, que passou a ter um papel tão importante na identidade cultural portuguesa”.

A preservação da memória

No espaço público, era assumido que Amália Rodrigues era uma mulher que precisava muito do afeto do outro, que queria ser lembrada no futuro, necessitava do reconhecimento e das palmas. “Dizia com uma certa graça, ‘eu gosto tanto desse barulhinho que sai das vossas mãos’”, recorda Ricardo Nunes. Na fase final da sua vida, a diva do fado manifestou um desejo, que ficou em testamento: que o seu património, nomeadamente a casa na Rua de São Bento e a herdade do Brejão, ficassem sobre a alçada de uma fundação: a Fundação Amália Rodrigues. “Esta configuração, através da fundação, serviria para manter viva a sua memória, de modo que as pessoas tivessem também a possibilidade de conhecer os locais onde viveu”, refere. Contudo, para uma pessoa admiradora como o colecionador, “tudo o que se faça para preservar a memória de Amália pode ser insuficiente”.

Ricardo Nunes dá como exemplo que grande parte dos vestidos de gala e de recital, que se encontram no sótão de Amália são peças “que estão literalmente encafuados” e sem qualquer tipo de visibilidade pública. “Num país que tivesse outra capacidade financeira e outra sensibilidade para o assunto já teria disponibilizado algum espaço para valorizar todo esse acervo, que também faz parte da cultura visual e do reconhecimento daquilo que Amália espalhou pelo mundo. Amália não foi apenas vestida pelas suas costureiras, mas também por figurinistas do cinema, do teatro e levou essa criação para fora do país”, sugere.

O professor recorda as exposições que aconteceram por altura das comemorações dos 50 anos de carreira de Amália Rodrigues. A primeira, que teve lugar no Museu do Traje, foi uma exibição biográfica baseada no vestuário utilizado pela cantora. “Parte da indumentária de Amália ficou conhecida como os vestidos de infanta, tal a monumentalidade e tal a criatividade que era justamente colocada nessas vestimentas”, comenta. Já a segunda,foi uma exposição que se subdividiu entre o Museu da Eletricidade e o Centro Cultural de Belém, que além do traje se suportou no calçado, na bijutaria e nas joias preciosas. “Ela era uma mulher que gostava de colocar não só o pechisbeque em cima, mas também gostava de exibir o seu ouro e de exibir os seus diamantes.”

Atualmente, em Lisboa, existem apenas dois espaços de homenagem à fadista. Inaugurada a 23 de julho de 2001, a sua antiga casa na Rua de São Bento cumpriu um dos desejos do testamento da artista, que era abrir a sua residência ao público e partilhar o lado mais pessoal e íntimo. A outra iniciativa é o Ah Amália – Living Experience, em Marvila, inaugurada a 1 de maio de 2024. Trata-se de uma experiência biográfica imersiva sobre a vida de Amália. “Talvez pudéssemos fazer muito mais do que aquilo que está a ser feito”, sugere.

Por entre tantos discos, livros e outros objetos preciosos, a coleção do professor composta por 1200 artigos ajuda a manter viva uma voz que se recusou a caber num tempo e que se continua a ouvir e a sentir além da sua época. Para Ricardo Nunes, é a mais estranha forma de vida: “Amália é uma mulher e uma artista de tamanha longitude e latitude que abarca imensos quadrantes geográficos, que são a expressão maior daquilo que foi o seu sucesso pelo mundo inteiro.”

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