Há anos que Mário Guerra não vai ao cinema ou ao teatro. Depois de contas pagas, há meses em que as receitas da livraria independente que gere, a Poesia Incompleta, “não chegam a metade de um salário mínimo”. É à conta de levar uma vida mais pobre económica e culturalmente que o livreiro consegue manter o espaço na Rua de São Ciro, no bairro lisboeta da Lapa. Em funcionamento contínuo desde 2018, a loja é, desde então, a única fonte de rendimento de Mário Guerra, que vai, diz, “contando os tostões” numa profissão sem direito a férias ou subsídios. “É a vida de quem escolhe um emprego ligado à cultura”, lamenta.
De Camões a Pushkin, do mais clássico ao mais contemporâneo, opções não faltam a quem visita a Poesia Incompleta. São mais de vinte os idiomas que integram o catálogo da livraria, que resulta exclusivamente da curadoria personalizada de Mário Guerra. Mas a singularidade da oferta e da premissa da loja – única em Portugal a vender apenas poesia – nem sempre se traduz numa procura animadora. “Não tenho muita concorrência porque a minha livraria é só de poesia, mas, mesmo assim, quase não há vendas”, conta o proprietário, que não acredita que a especificidade do nicho literário em que a livraria se insere seja útil para otimizar o seu desempenho.
Fernando Ramalho é mais otimista. Para o gerente da Tigre de Papel, a autenticidade e a autonomia na seleção dos artigos continuam a ser o je ne sais quoi das livrarias independentes e o elemento diferenciador que lhes permite “escapar”, ainda que não totalmente, à concorrência das grandes cadeias. Para o livreiro, a estratégia passa, desde logo, por fugir à ‘ditadura dos lançamentos’. Enquanto livrarias pertencentes aos grandes grupos editoriais tendem a valorizar estreias e novidades, “sem um critério que não a expectativa de que os livros sejam vendidos”, Fernando Ramalho procura tomar decisões mais originais e conscientes no que toca aos títulos que escolhe expor. “Se uma livraria pequena entra nesse jogo, não tem hipótese alguma e, por isso, aqui faz sentido que a seleção seja orientada por outros fatores”, explica.
No entanto, remar contra a onda dos grandes grupos e rejeitar as lógicas comerciais do mercado não é fácil. “Sinto-me um anão a competir com um gigante”, confessa Mário Guerra. Por isso, às vezes há que fazer uma “pequena batota”. Quem o diz é Ana Rita Fernandes, dona da Baobá, em Campo de Ourique, que admite, esporadicamente, disponibilizar lançamentos novos para atrair a atenção dos clientes, mas sem nunca descurar a identidade e a linha editorial do espaço. Orientada para a venda de artigos ilustrados, a Baobá tem procurado ser, mais do que uma loja de livros, um “espaço cultural”, segundo Ana Rita. “Tentamos criar um ambiente com uma oferta que não é necessariamente impossível de encontrar noutros sítios, mas que será difícil ou que estará mascarada por outras coisas”, esclarece.
É com esta ideia em mente que a Baobá acolhe, todos os meses, eventos diversos, pensados sobretudo para crianças. Oficinas de trabalhos manuais, sessões de storytelling e encontros de clubes de leitura infantis são alguns dos exemplos que, segundo a gerente, permitem à equipa da livraria criar uma relação “mais intimista e personalizada” com o público e fidelizar a clientela. Mas nem só a Baobá valoriza a dinamização de atividades: também a Tigre de Papel e a Poesia Incompleta fazem da programação cultural parte da sua identidade. E se numa se destacam as apresentações de livros e os debates, na outra são as sessões de declamação de poesia com escritores e dramaturgos convidados que mais atraem visitantes.
Virar a página sem fechar o livro
Se, por um lado, a relação com as principais cadeias cai na lógica da concorrência, entre livrarias independentes, por outro, a convivência é bem diferente. “Não faz muito sentido encarar as demais livrarias independentes em termos de competição, porque isso seria uma espécie de concorrência dos miseráveis”, ironiza Fernando Ramalho. Assim, foi com espírito de comunidade e entreajuda que, em 2020, mais de meia centena de lojas de todo o país se uniram para formar a Rede de Livrarias Independentes (ReLi). Equacionada para dar resposta à crise no setor, agravada, na altura, pelos encerramentos impostos pela pandemia de COVID-19, a estrutura funciona, desde então, como uma rede de apoio mútuo entre livreiros.
Embora, como Fernando Ramalho explica, a ReLi não tenha impactos concretos na subsistência financeira dos comércios aderentes, a associação tem servido como uma “voz unificada” das livrarias independentes nacionais, usada para centralizar a discussão sobre os problemas que estas enfrentam e conjugar esforços na procura de soluções. “A ReLi também ajudou a chamar a atenção das pessoas para nós e isso, por si só, já é positivo”, acrescenta Ana Rita Fernandes, que sublinha tratar-se de “uma entidade“ainda em construção”.
Além disso, a associação tem assegurado ainda a linha de contacto das lojas com o Ministério da Cultura. Para Mário Guerra, no entanto, a comunicação com uma parcela do executivo não chega. “Num país vagamente civilizado, o Ministério da Cultura tem que ser vizinho do Ministério da Educação”, diz. Segundo o livreiro, enfrentar as tendências de baixo consumo de literatura em Portugal deve começar nas escolas e nas políticas públicas de incentivo à leitura. Parcerias com bibliotecas escolares, por exemplo, poderão estar na base de uma mudança de paradigma para as livrarias independentes. “Não tenho dúvidas de que a criação de leitores gera a criação de compradores de livros, e quanto mais compradores houver, mais saudáveis serão as livrarias”, defende.
Ana Rita Fernandes vai mais longe: “É preciso levar a cabo uma campanha séria de consciencialização das pessoas para o facto de que a sua ação de compra é um ato político.” Para a proprietária da Baobá, o caminho em direção à promoção das livrarias independentes passa por garantir que os consumidores “sabem a diferença entre comprar num espaço local e numa grande loja e tomam decisões mais informadas na hora de escolher a quem dão o seu dinheiro”. E conclui: “Há, em Portugal, uma tendência para optar sempre pelo mais barato, mesmo quando se tem capacidade económica e poder de compra para não o fazer, algo que devia ser mais incentivado.”
Até lá, entre a paixão pelos livros e a dificuldade de viver deles, fica a esperança por um futuro mais risonho para as livrarias independentes, mas também a certeza de que estes espaços de saber irão resistir. Mário Guerra não nega que é preciso “implementar uma série de medidas para que os livreiros autónomos deixem de viver com a corda ao pescoço”, mas também não esconde que é “o amor à poesia” que o faz continuar. “Até à falência, estou cá”, garante.